Maternidade vs Borderline

 

Como uma mãe portadora do Transtorno de Personalidade Limítrofe afeta seus filhos.

Filhos de mães com Transtorno de Personalidade Limítrofe (BPD) fazem parte de um grupo de crianças potencialmente prejudicadas e possuem um futuro psicopatológico arriscado. Crandell (1997) demonstrando então que não possuem um quadro estável, no entanto, crianças que são capazes de resolver experiências traumáticas precocemente são capazes de obter um “ganho seguro” quando atingem a idade adulta.

Experiências iniciais de mães com Transtorno de Personalidade Borderline

 Mães com BPD são conhecidas por terem um histórico relativamente extenso de relacionamentos ruins e uma instabilidade acentuada em vários pontos de suas vidas. Prevê-se então que os comportamentos característicos do Borderline poderá interferir na relação Mãe/Filho, assim como interfere em outros tipos de relacionamento.

Os sintomas do Transtorno de Personalide Limítrofe no contexto: Parentesco

Os sintomas característicos do transtorno são passíveis de prejudicar a capacidade de uma mãe com BPD de exercer esse grau de parentesco de uma forma eficaz, afetamento negativamente o desenvolvimento emocional e social da criança.

Por exemplo, os adultos com BPD geralmente exibem um padrão de relacionamentos instáveis e uma série de problemas interpessoais (APA, 2000). Eles geralmente apresentam uma forma desorganizada de lidar com situações de stress e frequentemente oscilam entre a extrema idealização e desvalorização do próximo (Holmes, 2005; APA, 2000). Sugere-se que a relação Mãe/Filho não está protegida contra esses problemas interpessoais.

Dessa forma, pessoas com BPD muitas vezes ultapassam os limites interpessoais e expectativas de exercer um papel. Muitas pessoas com BPD, por exemplo, vão ser empáticos em cuidar de outra pessoa, mas por traz, existe uma expectativa de que essa outra pessoa estará a disposição do BPD quando ele criar uma demanda (APA, 2000). Muitos desses pacientes tem o hábito de fazerem reivindicações impraticáveis alegando que as pessoas não estão presentes o suficiente, além de fazerem exigências irrealistas da quantidade de tempo que elas passam juntas. Muitas vezes o BPD responde com raiva intensa à separações e tende a fazer pequenas mudanças de planos como consequência disso (APA, 2000).

Concomitamente, uma mãe com BPD tende a tratar a criança como um “objeto de gratificação”, ao contrário de um indivíduo, uma pessoa autônoma. Tais comportamentos, misturado com a poderosa capacidade de alternar entre idealização e desvalorização do outro, faz com que a relação positiva entre Mãe/Filho afete negativamente o desenvolvimento de habilidades e senso interpessoal da criança.

Além disso, o grau de parentesco exercido por parte da mãe com BPD, é comprometido pela instabilidade que existe em seu senso de personalidade própria. No geral, as pessoas com BPD mantém uma imagem negativa de si mesmas sentindo-se negativamente inúteis.

Também é típico em adultos com BPD acontecerem mudanças bruscas de aspirações, vocação, identidade sexual e valores (APA, 2000).

Uma vez que é através da relação única entre Mãe/Filho que a criança desenvolve o senso de si mesma, essa imagem auto distorcida que uma mãe BPD possui, pode afetar negativamente a auto-imagem da própria criança.

A incapacidade regular que uma mãe BPD tem para lidar com suas próprias emoções obstrui a capacidade de lidar com os diferentes estados afetivos de seu filho (Newman & Stevenson, 2005; Paris, 1999). É comum essas mães se sentirem ansiosas, distante, confusas, ou oprimidas por seus filhos (Hobson et al, 2005; Holman, 1985; Newman & Stevenson, 2005). Quando esses pais ficam presos em sua própria “organização defensiva de pensamento” (Crandell, Fitzgerald, e Whipple, 1997, p. 250), eles impedem seus filhos de passarem pelo processo de integração que certas experiências e comportamentos afetivos proporcionam.

Mães com BPD, por exemplo, possuem dificuldade em controlar a raiva que muitas vezes é precipitada por mudanças no ambiente e ou medo de abandono intenso (APA, 2000; Paris, 1999). Suas fortes explosões de raiva podem ser prejudiciais para o desenvolvimento da criança, muitos filhos de mães com BPD são vítimas de abusos verbais e ou físicos (Newman & Stevenson, 2005). Glickhaulf-Hughes e Mehlman, (1998) sugerem que a “hostilidade da mãe, raiva e comportamento destrutivo podem ser disfaçadas como amor, tornando-se difícil para a criança confiar em suas próprias percepções da realidade (p. 296).

Além disso, uma mãe portadora desse transtorno é incapaz de regular adequadamente suas emoções, dessa forma ela reage de forma imprópria aos estímulos ambientais. Sua incapacidade de regular essas emoções, muitas vezes produzem comportamentos impulsivos e de auto-mutilação. As pessoas com BPD por exemplo, frequentemente se envolvem em jogos de azar, abuso de substâncias, compulsão alimentar entre outros comportamentos auto-destrutivos. Cerca de 8-10% dos pacientes com BPD cometem suicídio, e uma porcentagem ainda maior (cerca de 70%), tentam suicídio ou se envolvem em comportamentos que são fisicamente prejudiciais (APA, 2000; Paris, 1999, Trull et al, 2003).

Os efeitos psicológicos deste comportamento auto-destrutivo sobre as crianças podem ser enormes. Especialmente se um dos pais chega a cometer suicídio, a criança sente uma imensa culpa, e se pergunta “por que”, essas crianças passam por um luto complicado, tendem a se sentir isolados e com raiva, além de desenvolverem Stress Pós Traumático entre outras psicopatologias (Cerel, Fristad, Weller & Weller, 2000; Emerson, 2003).

Experiências iniciais e o Desenvolvimento da Criança

Pesquisas demonstram de forma consistente que o apego que um adulto tem aos pais é associado às experiências de apego na infância (Crandell et al, 1997). Mães com BPD na infância tiveram apego à pais “desorganizados” como cuidadores primários, que continuam se sentindo “não resolvidos” mesmo em relações interpessoais na fase adulta. (Crandell et al, 2003; Hobson et al, 2005; Holmes, 2005). Assim, mães com BPD apresentam um nível elevado de desorganização (Holmes, 2005, Lyons-Ruth & Jacobvitz, 1999). Verificou-se que mães BPD tiveram uma má adaptação à esse processo na infância e que isso é passado para a próxima geração, através da replicação do trauma não resolvido (para uma discussão sobre o grau de transmissão desse trauma ver Crandell et al, 1997; Crandell et al, 2003; Van Ijzendoorn, 1995). Na verdade, esse problema irá refletir na vida da mãe BPD está relacionado com a qualidade da relação que essa mãe teve com os seus pais na infância. (Crandell et al, 1997; Van Ijzendoorn, 1995). A mãe BPD com histórico de trauma na infância, reproduz esse trauma em sua própria família, através da má adaptação que essa mãe teve em seu ambiente inadequado e os comportamentos parentais explícitos.

Feldman, Zelkowitz, Weiss, Vogel, Heyman e Paris, (1995) descobriram que as famílias de mães BPD’s em comparação com as famílias que não possuem origem de mães BPD’s foram significamente menos organizadas, e marcadas por uma quantidade maior de instabilidade do que as famílias sem a patologia limítrofe.

Traumas não resolvidos e os Comportamentos Parentais Explícitos

Traumas não resolvidos associados ao Transtorno de Personalidade Limítrofe, muitas vezes dificulta a capacidade da mãe de exercer um papel eficaz. Os pais que são incapazes de refletir sobre suas histórias na infância e integrá-las às suas experiẽncias, tem uma capacidade limitada de disponibilidade emocional para os filhos. (Crandell & Hobson, 1999). Especificamente, uma mãe com BPD pode não ter a capacidade de responder de forma adequada seus filhos, projetando o material do seu passado em sua experiência materna. (Crandell et al, 1997). Por exemplo, a divisão de defesa pode interferir na relação entre pais e filhos através da percepção que a mãe BPD tem da criança, que varia entre “tudo de bom”, onde essa criança precisa ser salva, ou “tudo de ruim”, onde a mesma precisa ser repreendida (Newman & Stevenson, 2005, Glickhauf-Hughes & Mehlman, 1998). Mesmo os atos de cuidado podem desencadear memórias dolorosas da história de trauma da mãe, tornando-se muito difícil para a mãe com BPD lidar com os desafios diários de ser mãe.

Crandell et al, (1997) empiricamente verifcou que a maneira como essas mães são organizadas mentalmente prevê com precisão a forma como elas interagem com os seus filhos. Assim, as mães identificadas como “seguras” na infância interagem de forma mais fluida e sincronicamente com os seus filhos do que as mães identificadas como “inseguras”. Congruentemente, uma mãe com histórico BPD, nas primeiras experiências traumáticas apresentam um resultado de desajuste em seus padrões comportamentais, os quais são menos favoráveis na formação da autonomia da criança. Mães com BPD tendem a interagir de forma “intrusiva insensível” com os seus filhos (Hobson et al, 2005). Essas interações podem interferir na capacidade de desenvolvimento da criança de se relacionar com outras pessoas dentro do ambiente em que ela convive e produz uma miríade de problemas interpessoais para a mesma.

Desenvolvimento do Transtorno em Filhos de Mães com Transtorno de Personalidade Limítrofe (Borderline)

Apesar das dificuldades que as mães com BPD tem em se estabilizar emocionalmente e a importância existente na relação Mãe/Filho no desenvolvimento social e emocional de uma criança, não é presente o desenvolvimento psicossocial em crianças de mães com BPD. Até hoje, a pesquisa mais significante já realizada com o intuito de examinar o desenvolvimento psicossocial dessas crianças foi realizada por Weiss, Zelkowitz, Feldman, Vogel, Heyman e Paris (1996).

Weiss et ai, (1996) confirmou-se que as crianças de mães com BPD, em comparação com crianças de mães que não possuem o transtorno, tinham um número significamente maior de diagnósticos psiquiátricos e pontuaram mais alto em uma classificação global de imparidade. Os autores demonstraram que filhos de mães com BPD têm um risco aumentado para o desenvolvimento de transtornos Borderline. Mesmo quando o trauma de infância foi controlado, não foram encontradas diferenças entre os grupos significativos no funcionamento da relação entre filhos de mães com ou sem BPD; houve uma variação de 20% funcionamento dessa relação em crianças normais contra 8% das crianças com patologia Borderline. Os resultados fornecem dados sobre o desenvolvimento de crianças de mães com BPD. No entando, o estudo foi limitado devido à pequena quantidade de amostras que foi coletada e a falta de atenção nos diagnósticos co-mórbidos. Esses resultados preliminares apontam para a necessidade de mais pesquisas com uma amostra em quantidade maior, inclusive de mães com diagnóstico de comomorbidade.

Traços da Criança

Filhos de mães com BPD apresentam uma prevalência significativa de traços que indicam “desorganização” do que filhos de mães sem o transtorno (Hobson et al, 2005). As mães com insensibilidade e com BPD são intrusivas, apresentam uma desregulamentação afetiva, confusão sobre as expectativas do papel desempenhado por elas, e experiências traumáticas não resolvidas foram apontadas como principal precursor dessa desorganização (ver Van Ijzendoorn et al, 1999, Hobson et al, 2005).

Desorganização em crianças tipicamente surge em resposta ao estresse recorrente. No caso de filhos de mães com BPD, as respostas desorganizadas das crianças desenvolvem à partir do que Main (1995) refere-se como uma abordagem esquiva. O estresse associado com o Borderline e a a sintomatologia (por exemplo, comportamento errático ou volátil) faz com que as crianças se apeguem simultaneamente e se afastem do seu cuidador. Em outras palavras, em momentos de perigo ou estresse, a criança busca a mãe como uma “base segura”, mas no caso de uma mãe com BPD, muitras vezes é a própria mãe quem está levantando a ameaça.

Desorganização comportamental em crianças implica a má adaptação e, portanto preocupam os profissionais de saúde mental que trabalham com crianças de mães com BPD. A investigação mostra que a desorganização na infância atinge níveis modestos de estabilidade a longo prazo, mas está ligada a uma série de sequelas patológicas (Holmes, 2005, Van Ijzendoorn et al, 1999). Crianças desorganizadas enfrentam problemas de gestão de estresse, muitas vezes envolvem-se em comportamentos exteriorizados, podendo se deparar com comportamentos dissociativos mais tarde em suas vidas (Lyons-Ruth & Jacobvitz, 1999; Van Ijzendoorn et al, 1999).

Desenvolvimento Cognitivo

Pouco se sabe sobre o desenvolvimento cognitivo em crianças de mães com BPD, mas altos níveis de traços “desorganizados” sugerem que esas crianças enfrentarão problemas graves no seu desenvolvimento cognitivo. A segurança do apego com o cuidador principal está relacionada com o desenvolvimento intelectual e o funcionamento de crianças em que a capacidade de resposta com o seu envolvimento materno apoia o seu desenvolvimento emocional (ver Crandell & Hobson, 1999). Assim, uma mãe BPD com traços de insensibilidade, intrusão e imprevisibilidade afeta negativamente, o desenvolvimento cognotivo de uma criança.

Crandell e Hobson (1999) conduziram um estudo do funcionamento intelectual em crianças de mães consideradas “seguras” e “inseguras”. Eles descobriram que filhos de mães inseguras marcaram uma média de 19 pontos a menos que os filhos de mães “seguras” no teste Standford-Binet (Teste que mede a escala de inteligência). Além disso, os estudos revelam que as crianças neurobiológicamente desorganizadas têm níveis aumentados de cortisol e uma diminuição do desenvolvimento mental (Hertsgaard, Gunnar, Erickson & Nuchmias, 1995). Uma vez que a maioria dessas crianças de mães com BPD possuem uma desvantagem cognitiva (Holmes, 2005).

Inter-relação entre a Afetividade em crianças de mães com Transtorno de Personalidade Borderline.

Crianças de mães com BPD geralmente exibem um padrão de comportamento desorganizado e são forçados a lidar constantemente com os limites de sintomatologia de sua mãe (incluindo as suas relações interpessoais inadequadas, repetidos relacionamentos que não deram certo e falta de estabilidade afetiva), é de se esperar que essas crianças mostram um déficit de relacionamentos interpessoais.

Embora não haja pesquisas mínimas nesta área até o momento, não há evidências que sugerem que os bebês de mães com BPD têm uma forma alternativa de lidar com o estresse interpessoal (Crandell et al, 2003). Durante o experimento chamado de “Strange Situation” desenvolvido para analizar comporatmento de apego à esta “base segura”, observou-se que filhos de mães com BPD estão menos disponíveis para o envolvimento positivo com um estranho (Hobson et al, 2005). Essas crianças se tornam menos satisfeitas que as criaças de mães não portadoras do transtorno a partir da interação Mãe/Filho após uma separação interpessoal. Crandell et al, (2003) discute como esse modo alternativo de lidar reflete a expectativa da criança de que os pais não voltaram a acalma-la em momentos de tensão.

É importante salientar que as evidências exploratórias que crianças de mães BPD apresentaram, mostram sinais de desregulação afetiva, durante o experimento chamado de “Still Face Procedure” foi observado que essas crianças apresentam um “brilho ofuscado” (Crandell et al, 2003). Crandell descobriu que os filhos de mães com ou sem o transtorno apresentaram semelhanças antes do procedimento, logo após o início dos testes, as crianças de mães com BPD apresentara um declínio durante e após o procedimento. Elas obtiveram uma pontuação menor no teste que media a organização comportamental sob estrsse (Hobson, 2005) e elas necessitavam de mais tempo para se recuperarem da situação de estresse. Esses resultados preliminares sobre conflitos emocionais em crianças de mães com BPD reforçam as observações psicanalíticas. Relatos descrevem essas crianças como tendo tendências comportamentais defensivas, “necessidades emocionais através da negação”, comportamento auto-destrutivo e inversão de papéis, além de apresentarem frequentemente o medo do abandono. (Glickauf-Hughes & Mehlman, 1998, p. 300).

Há evidencias que sugerem que, mesmo no meio da infância, as crianças de mães BPD podem apresentar problemas de relacionamento interpessoal e regulação afetiva. Estudos mostram que as crianças desorganizadas têm mais dificuldade em se engajar em processos “democráticos” com crianças da mesma faixa etária, entre 6 e 7 anos. Além disso, as crianças desorganizadas mantém uma incapacidade de resolver adequadamente situações assustadoras no meio da infância (Holmes, 2005).

Jane Middleton-Moz é uma terapeuta que discute internacionalmente sobre temas relacionados à traumas. Ela tem mais de 20 anos de experiência em trabalhos comunitários na área da saúde mental, incluindo o cargo de Diretora Clínica da maior organização de saúde mental de Washington.

Fonte: http://bpdfamily.com/bpdresources/nk_a108.htm

Artigo Extraído de: Andrea E. Lamont, Jornal de Graduação de Psicologia, 2006, Vol.8 – Escola de Professores, Universidade de Columbia.

Considerações: Jane Middelton-Moz, terapeuta e autora.