Ferenczi: vida, clínica, cultura e o movimento psicanalítico

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RESENHA

 

Ferenczi: vida, clínica, cultura e o movimento psicanalítico

 

Ferenczi: life, clinic, culture and the psychoanalytic movement

 

Ferenczi: vida, clínica, cultura y el movimiento psicoanalítico

 

Julio Sergio VerztmanI

IProfessor do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica (PPGTP-UFRJ) e do mestrado profissional em atenção psicossocial do IPUB-UFRJ

 

Resenha do livro: Pinheiro, T. (2016). Ferenczi. São Paulo: Casa do Psicólogo, 202 p.

O surgimento da psicanálise em nossa cena intelectual, cultural, terapêutica, psicológica ou social propicia até hoje inúmeras narrativas em torno da figura central de Freud. A descontinuidade produzida por este em nossas concepções sobre o que nos motiva e nos constitui como sujeitos ainda reverbera – num mundo cada vez mais encantado com perspectivas mecanicistas e reducionistas, defendidas por certas correntes do que se convencionou chamar de neurociências. É sabido que Freud, em toda a sua vida e vasta obra, sempre se encantou com a perspectiva da ciência, se inflou de esperanças de que os conhecimentos futuros sobre a natureza e a biologia pudessem conferir maior precisão às suas teorias, mesmo que os resultados delas se originassem de pressupostos diferentes dos seus. O zelo de Freud por cada detalhe de seu edifício teórico – um canteiro de obras que jamais cerrou suas portas – sempre foi incomparável e motivou rupturas e afastamentos com diversos colaboradores durante sua trajetória. Desde seus primeiros escritos e sua pródiga correspondência, percebe-se que as fontes principais da criação desse universo original foram a experiência clínica, a imaginação especulativa do gênio de Freud e sua enorme capacidade introspectiva, conhecida como autoanálise, tendo como matéria-prima os dados fornecidos pela cultura e pela ciência de sua época. Mas, sem dúvida, outra fonte criativa derivou de sua relação próxima com um círculo restrito de discípulos.

Dentre as inesgotáveis histórias que podemos contar sobre a aventura caracterizada pelo novo saber, algumas delas terão o mais longevo colaborador de Freud como personagem principal. Não podemos conceber um livro sobre o campo da psicanálise ou sobre a elaboração de seus principais paradigmas que omita ou coloque de lado as contribuições de Ferenczi. Desde 1907 até o final prematuro de sua vida, em maio de 1933, esse psicanalista húngaro acompanhou entusiasticamente Freud em todos os seus insights e hesitações, em todas as suas disputas, na elaboração de suas viradas teóricas, na discussão e avaliação de seus manuscritos antes mesmo de estes serem publicados, em uma interlocução que constitui a maior correspondência (tanto em número de cartas quanto em tempo de contato) mantida pelo grande missivista, modo pelo qual Freud era reconhecido por seus pares.

Não podemos deixar de saudar, portanto, a publicação do livro Ferenczi, de Teresa Pinheiro (Casa do Psicólogo, 2016). Trata-se de uma obra essencial para quem quer conhecer ou se aprofundar nas concepções do psicanalista húngaro. Teresa Pinheiro é, há muito tempo, uma estudiosa desse autor, tendo consagrado a ele sua tese de doutorado na universidade de Paris 7, inúmeros artigos científicos desde então e um livro anterior intituladoFerenczi: do grito à palavra (Pinheiro, 1995). Realçamos também que a autora é uma pioneira na pesquisa e ensino da obra de Ferenczi em nosso país. A proposta do livro é ousada, já que visa a colocar, lado a lado, vida e obra, trama conceitual e trajetória pessoal, tropeços clínicos e inovações terapêuticas, contexto cultural e contexto do movimento psicanalítico. A autora consegue atingir o resultado esperado sem reducionismo ou simplificação. Não se pretende compreender o surgimento de conceitos fulcrais para a teoria e, sobretudo, para a clínica psicanalítica em seu nascedouro, dando a conhecer somente aspectos da vida de Ferenczi e de sua relação com Freud.

O livro produz uma abertura para que o leitor faça suas correlações. O método sugerido pelo livro facilita, entretanto, a contextualização de suas ideias e permite um maior alcance para a elucidação de certos aspectos das propostas ferenczianas. Podemos fornecer um exemplo. O ano de 1919 foi especialmente pródigo em acontecimentos pessoais, políticos, sociais e para o movimento psicanalítico. Nesse ano, o governo comunista de Béla Kún iniciou sua breve trajetória na Hungria, sendo deposto pouco tempo depois. Antes de sua deposição, entretanto, Ferenczi – que sempre se postou ao lado das forças revolucionárias – foi nomeado para a primeira cadeira de professor de psicanálise de que se tem notícia. Isso ocorreu logo depois do V Congresso da IPA em Budapeste, no qual se começou a vislumbrar o atendimento psicanalítico para camadas mais pobres da população.

Esse congresso produziu grande impressão em Freud. Nesse mesmo ano, Ferenczi, após idas e vindas que pareciam intermináveis, se casou finalmente com Gizella, com as bênçãos e o entusiasmo de Freud, que sempre nutriu por ela grande simpatia. Ainda em 1919, Ferenczi publicou seu primeiro artigo sobre a técnica ativa, sendo estimulado diretamente por Freud, que um ano antes tinha publicado seu relato sobre “O homem dos lobos”. Teresa Pinheiro simplesmente fornece uma série de pistas, as quais produzem renovadas formas de compreensão da obra do mestre húngaro. Novas narrativas se tornam possíveis para o leitor quando os conceitos são contextualizados, historicizados e situados.

O método posto em prática pela autora faz com que Ferenczi seja um livro que lemos como um romance, acompanhando trajetórias e relações humanas, mesmo que um dos seus objetivos seja a elucidação conceitual. Só alguém experiente e profundamente conhecedora da obra de um autor pode produzir tal efeito. O efeito de nos aproximarmos dos problemas enfrentados por essas figuras humanas, expressas no livro, rumo à consolidação de uma clínica efetivamente transformadora da subjetividade. A frase acima sublinha a palavra clínica porque Ferenczi e clínica são termos inexoravelmente articulados.

A presença de Ferenczi a seu lado permitiu a Freud dividir certas tarefas com seu discípulo. Após os anos de 1912 e 1914, quando Freud publicou seus principais escritos técnicos, o pai da psicanálise foi cada vez mais rareando sua produção relacionada à técnica e ao manejo de uma análise. Sabemos por sua extensa correspondência que Freud delegou a Ferenczi contribuições nessa direção. Confiava na capacidade de seu principal pupilo para enfrentar as situações clínicas avessas ao setting tradicional e, especialmente, na sua disponibilidade para acolher organizações subjetivas resistentes ao surgimento de uma “neurose de transferência” e à associação livre. Desse modo, Ferenczi se tornou o grande experimentador da psicanálise, aquele que não se detinha por obstáculos teóricos que funcionassem como barreiras previamente estabelecidas ao início de uma análise. Apesar do profundo respeito e admiração que nutria por Freud, também seu analista por dois breves períodos, Ferenczi tinha uma fé inabalável na experiência clínica, mesmo que esta contradissesse as opiniões do mestre. Como demonstra Teresa Pinheiro, já em 1912, poucos anos depois de se tornar psicanalista, Ferenczi vaticinou a importância da experiência para a formação do psicanalista, o que incluía a experiência de sua própria análise:

É preciso ter tido uma vivência afetiva, ter experimentado na própria carne, para atingir um grau de certeza que mereça o nome de “convicção”. Assim, o médico que só estudou psicanálise nos livros, sem se ter submetido pessoalmente a uma análise profunda nem adquirido a experiência prática junto dos pacientes, dificilmente poderá estar convencido da correção dos resultados da análise (citado por Pinheiro, 2016, p. 49).

É certo que Freud, desde o início de sua jornada, sempre insistiu na articulação entre teoria, pesquisa e clínica. Foi Ferenczi, todavia, aquele levou essa postulação a seu máximo paroxismo. Cada vez mais o interesse desse autor foi se dirigindo para uma região subjetiva onde se entrelaçavam as vivências de seus pacientes, incapazes de serem expressas pela linguagem associativa e suas próprias experiências primitivas. Não é fortuito o fato de o nome de Ferenczi ser sempre mencionado quando o tema da intersubjetividade é evocado. Em suas constantes experimentações, esse psicanalista supôs que o psiquismo do analista pode ser uma ferramenta para a exploração da vida psíquica de quem o procura mas não encontra meios habituais de expressar seu sofrimento indizível. Nesse ponto Ferenczi estava nitidamente à frente de seu tempo e de seu mestre e analista. Ele potencializou a noção freudiana de relação transferencial e propôs novas formas de intervenção para sujeitos não neuróticos. Pagou o preço de falar o que seus interlocutores não estavam preparados para ouvir. Propôs, por exemplo, o termo “análise mútua” pelo qual foi mal compreendido e até difamado. Mas como afirma Teresa Pinheiro:

Assim como a técnica ativa, ela seria uma prática a ser aplicada muito raramente, apenas para alguns pacientes. Não significa o que o nome sugere (uma análise em que haveria dois analistas e dois pacientes que alternariam os papais), mas uma análise na qual a percepção que o paciente tem dos sentimentos subjetivos do analista seria por este levada em consideração (Pinheiro, 2016, p. 163).

É fácil perceber como os dois homens, mestre e discípulo, seguiram por caminhos separados a partir de determinado momento. A confluência entre a análise do analista e a análise de seus pacientes,fez Ferenczi perceber aspectos seus não analisados por Freud, os quais este se recusava a admitir. O tema da hipocrisia profissional começou a ser ventilado por Ferenczi exatamente nessa época. Ele percebeu que certos pacientes necessitam receber do analista muito mais do que interpretações. Eles precisam que seu analista dê crédito a vivências nos limites do representável, as quais só podem ser expressas se o analista as ratificar. Freud se recusava a admitir que os pontos novos trazidos por seu ex-analisando dissessem respeito à sua postura como analista, dando origem a um assunto caro a Ferenczi: o descrédito e o trauma. Ferenczi aceitava, assim, experimentar “na própria carne” algo que ele extraia da análise de seus “casos difíceis”. Ele ventilou a hipótese segundo a qual, se o analista repetir o papel da figura relacionada à origem do trauma, uma análise só produzirá bons pacientes submissos.

Por todas as razões aventadas nesta resenha, Ferenczi é um livro essencial nesse momento de imperativa renovação da teoria e da clínica psicanalítica. É um daqueles livros que podem ser usados por iniciantes no conhecimento da psicanálise ou por profissionais e pesquisadores experientes, tal é a sua riqueza de informações e de articulações. O último capítulo é dirigido ao legado de Ferenczi e à sua importância para a clínica contemporânea. Encerramos esta resenha com as palavras de Teresa Pinheiro, esperando que possamos ter contribuído para estimular o interesse do leitor por essa agradável, relevante e necessária leitura:

No entanto, a maior atualidade do pensamento de Ferenczi diz respeito às suas formulações teóricas e técnicas a partir dos casos difíceis de que se tornou especialista. Suas contribuições são fundamentais e suas propostas têm sido retomadas como recurso importante para a compreensão dos “casos difíceis” da contemporaneidade, hoje menos excepcionais do que nos anos 1920 e 1930 do século passado (Pinheiro 2016, p. 181).

 

Referências

Pinheiro, T. (1995). Ferenczi: do grito à palavra. Rio de Janeiro: Zahar.

Pinheiro, T. (2016). Ferenczi. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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versão On-line ISSN 1980-5438

Psicol. clin. vol.29 no.2 Rio de Janeiro  2017