Conversa com um orientando de TCC sobre Cutting

 

Orientando questiona:

Olá Henrique!

Não sei se lembra, que além da formação em Psicanálise eu também estou fazendo uma pós – em Psicanálise, que solicita um projeto de pesquisa, no meu caso, farei bibliográfica e no final do curso a defesa. Assim, pensei no tema automutilação (cutting) nos adolescentes. Porém, eu gostaria  de fazer um estudo, buscando compreender se   há uma interface entre a automutilação ( demanda mundo atual)  e a histeria de conversão (demanda do passado). Isto me chamou  atenção  pelo fato do ” corpo” está em evidências  em ambos.   Ainda estou definindo o tema e portanto  fiz poucos estudos,  apenas tem me chamado a atenção  a quantidade de jovens que estão realizando esta prática, onde a  redução de angustia  é “convertida”  em atos contra o próprio corpo.  Está correto esta linha de pensamento?

 

Minha Resposta:

Olá Orientando.

Veja bem, não podemos usar uma tabela para gerenciar a interpretação psicanalítica. Tudo é manifestação do corpo. Todo sintoma é corporal. O que não significa que tudo seja histeria, ou conversão somática como é conhecido.

Automutilação não é uma conversão somática, por que é a própria pessoa que se inflige o ferimento. Diferente de uma conversão somática em que a manifestação do sintoma se dá diretamente no corpo, ou seja, no organismo, em determinados órgãos, especialmente em terminações nervosas, resultante da ação de substâncias endógenas, que geram inflamações crônicas, ou ainda o mau funcionamento dos nervos.

Além disso, a histeria pela visão da psicanálise é uma psicopatologia resultante de uma percepção de um defeito no corpo, que é gerada por um defeito advindo de falhas na passagem do complexo de Édipo.

O histérico por excelência é aquele que desenvolveu a fantasia de haver sido criado com um defeito, e não resolvendo com a passagem do complexo de Édipo, antes de alcançar a castração simbólica, e consequentemente à criação de um superego adequado, permanece congelado, termo de Winnicott, buscando a reparação deste defeito com o qual imagina que nascera.

Portanto todas as defesas desenvolvidas a partir desta falha terão a característica histriônica, como por exemplo, pessoas muito escandalosas, expressões faciais exageradas, gesticulações de braços e mãos, voz com volume elevado, agressividade destrutiva, imposição ofensiva de suas opiniões, arrogância ignorante, enfim, aqueles tipos que são conhecidos como pessoas difíceis. E em casos mais graves, a conversão somática, que atualmente não tem as manifestações corporais da época de Freud, por um motivo muito simples: Hoje a Sexualidade é uma possibilidade real.

Ao contrário da época de Freud, em que a Sexualidade deveria ser reprimida, hoje ao contrário, existe uma publicidade da sexualidade alheia, inclusive o enaltecimento da libertinagem, ao ponto de comportamentos que seriam considerados perversão, serem admitidos e inclusive impostos a toda a sociedade como um direito, e até mesmo ao ponto de propagar que a tolerância de Tais comportamentos seria uma atitude humanista.

Visto esta explicação sobre histeria, a automutilação não é incluída neste nível de psicopatologia.

Automutilação é um estímulo de dor e de alerta gerado pelo próprio ego.

Automutilação faz o papel de um mecanismo de defesa!

Então podemos chegar a uma pergunta: Do que o ego está procurando se defender quando pratica a automutilação?

Vamos buscar a resposta.

Para isso precisamos entender o que é automutilação no sentido prático.

Quando uma pessoa se corta, sente dor, espanto, medo, e toda sorte de estímulos quê acionam o mecanismo de fuga e ataque no hipotálamo, como se tivesse sendo atacada por um animal selvagem e muito perigoso.

Isto aciona o cérebro a disparar uma enxurrada de neurotransmissores tais como, dopamina, noradrenalina, adrenalina, cortisol e endorfina, que vão dar ao sujeito várias Sensações excitantes, aumento da frequência cardíaca, aceleração da respiração, incremento da sudorese, dilatação das pupilas, enfim, uma super sensibilidade corporal.

Continuando a análise faço a seguinte pergunta: Se o sujeito que pratica automutilação busca a super sensibilidade corporal, o que lhe falta?

Uma vez que, conforme disse Lacan desejamos aquilo que nos falta.

Ora, quem busca sentir-se de uma maneira tão intensa, deseja-o, simplesmente porque não se sente.

Aí temos a resposta. A automutilação faz o papel de um mecanismo de defesa contra a despersonalização.

E despersonalização é um sintoma característico dá pré-psicose, ou esquizofrenia latente como era conhecido anteriormente, e transtorno de personalidade borderline, como é conhecido nos dias atuais.

Portanto toda a sua pesquisa deve ser embasada em personalidade limítrofe, estrutura perversa, paciente regredido…

Resumidamente, é a estrutura perversa na teoria freudiana, ou paciente regredido na teoria winnicottiniana, que vai dar o direcionamento, além de obviamente a ter bastante conteúdo em Melanie Klein e Bion, sobre estes pacientes, que possuem falhas na integração do ego, por onde a pulsão de morte invade o consciente, trazendo sensações horrorosas anteriores à fase anal.

Já reparou um bebê que quando é retirado o seu cobertorzinho, como ele se estica e entra em pânico, e quando enrolamos o mesmo bebê num manto quentinho, ao se sentir apertado por todos os lados, contido, ele simplesmente para de chorar imediatamente?

Pois bem, quando o bebê fica solto sem a sensação de algo que não permita que ele se sinta, Melanie Klein nomeou de sensação de despedaçamento.

O bebê não tem o ego integrado, natural de sua condição, e por isso quando não sente algo que o contém, na sua primitividade, tem a fantasia que está tendo seu corpo despedaçado. Agora imagine isso num adulto!!!?

Para compreender melhor a questão da integração do ego podemos imaginar as três estruturas da seguinte forma: O neurótico possui o ego integrado, ou como diria Melanie Klein um objeto integrado, estabelecido por uma barreira Alfa, como diria Bion, quem pede que os elementos Beta, ou pulsão de morte, invadam a consciência. Já o Psicótico tem o ego totalmente aberto sem nenhuma barreira de simbolização, ou seja, sem a barreira Alfa, e toda sorte de elementos Beta passam a fazer a composição da consciência, dando Psicótico, ausência de contato com a realidade, porque o Psicótico simplesmente percebe que aquilo que pensa, na sua mais variada forma como um sonho o é, como sendo realidade objetiva.

Para o Psicótico que pensa ser Napoleão Bonaparte, ele é realmente Napoleão Bonaparte.

Agora, o borderline, o portador de estrutura psíquica perversa, possui núcleos neuróticos não integrados compondo o ego, um ego não integrado, ou objetos parciais como diria M. Klein, ou seja, ele consegue realizar várias atividades ditas normais, porém, nos espaços entre estes núcleos, a invasão da pulsão de morte ou dos elementos Beta é constante.

Bion descreveu estes pacientes como ao invés de possuírem uma barreira Alfa que fizesse a conversão de elementos Beta, as Sensações corporais de aniquilamento e ansiedade, em elementos Alfa, que são a simbolização das nossas angústias, o ato de pensar efetivamente Racional e não meros pensamentos automáticos que surgem do inconsciente, como possuindo uma pantalha Beta.

Isto quer dizer que ao invés de terem uma verdadeira parede que não permita a invasão dos elementos Beta ou pulsão de morte sobre o consciente, esses pacientes possuem uma persiana cheia de furos, cheia de espaços permeáveis a todo tipo de angústia, de fantasia de aniquilamento, de sensação de finitude, e o tempo todo.

Outra característica diante da não integração do Ego é ausência de uma constância das sensações de permanência e pertinência.

Esta é a base do sintoma da despersonalização.

O borderline tem a sensação de que não habita o próprio corpo, ou de que não existe, ou mesmo que dirige um robô que não é seu próprio corpo.

As inúmeras variantes desta característica são determinadas conforme as fixações estabelecidas durante o crescimento do bebê até à idade da passagem pelo complexo de Édipo.

O aumento dos casos de automutilação é resultado da interação destes pacientes através da internet.

Quando um paciente desses encontra a notícia ou a publicação de que pessoas praticam automutilação, ele descobre esta possibilidade.

Antes da internet, casos de automutilação eram muito mais raros.

Hoje, em função da publicidade de toda sorte de sintomas que são relatados nas redes sociais, ocorre a cristalização destes sintomas em pessoas que Jamais teriam tal manifestação se jamais soubessem que isso existisse.

Isso é um só Norte para sua pesquisa e daí você tem todo uma Grande Aventura pela frente.

Pelo menos agora você tem o conceito corretamente colocado. A partir disso é pesquisar a literatura e fazer a conclusão.

Como sempre, precisando de orientação para o TCC, conte comigo.

Um Forte Abraço!

Henrique Trejgier