Neuropsicanálise: um novo paradigma para a psicanálise no século XXI

Há pouco mais de 100 anos, Sigmund Freud, médico neurologista, criava um método clínico de tratamento psicológico denominado psicanálise. Este método, a princípio, podia ser aplicado apenas aos neuróticos. Foi somente na década de 20 do século passado que a psicanálise começou a estender seu campo de aplicação, abrangendo as chamadas neuroses de guerra, com Sandor Ferenczi; a demência precoce, com Karl Abraham e Carl Gustav Jung; e a psicanálise infantil, com Anna Freud e, sobretudo, Melanie Klein. Estes psicanalistas romperam, de certa forma, com a idéia, defendida por Freud, de que a psicanálise estava restrita a adultos neuróticos. A partir da década de 50, Winnicott ampliará a aplicação da psicanálise aos distúrbios anti-sociais e à delinqüência juvenil; assim como Lacan desenvolverá uma teoria própria, que dará suporte à clínica das psicoses, e mesmo das perversões. Cada psicanalista citado desenvolveu novas teorias e técnicas voltadas para o seu campo de atuação.

Após um século de psicanálise, esta continua a ampliar seu campo de trabalho. Com o mais recente advento do método neuropsicanalítico, derivado do método neuropsicológico de Luria, a psicanálise estende mais uma vez sua capacidade clínica ao iniciar o tratamento de pacientes com lesões neurológicas. Este método clínico de pesquisa tem sido desenvolvido por nomes como o do sul-africano Mark Solms e do indiano V. S. Ramachandran. Curiosamente, a neuropsicanálise tem sido desenvolvida por cientistas de países historicamente marginalizados. A psicanálise, nos tempos freudianos, também tinha um caráter marginal, estando quase restrita aos judeus europeus. Além disso, a neuropsicanálise representa um retorno ao Freud neurologista, precursor da neurociência atual. Assim como Fausto, a psicanálise tem uma dívida com o seu Mefisto; e mesmo que tenha se distanciado da ciência nos últimos anos, esta mesma ciência – atualmente, como neurociência – vem, como Mefisto, lembrar a dívida histórica aos atuais discípulos de Sigmund Freud, o nosso Fausto. A neuropsicanálise surge, então, como uma das possibilidades de quitar essa dívida histórica da psicanálise com a ciência.

Muito se tem falado a respeito da neuropsicanálise nos últimos tempos, mas pouco ainda se sabe sobre esta nova proposta interdisciplinar. Nas próximas linhas, abordaremos, brevemente, a origem da neuropsicanálise enquanto método de pesquisa e movimento interdisciplinar. Tentaremos, em seguida, analisar os objetivos propostos por essa nova área do conhecimento e, finalmente, apresentar algumas críticas e sugestões, nas quais a neuropsicanálise poderia se enquadrar como um novo paradigma para a psicanálise no século XXI.

Em 1999, Eric Kandel, proeminente neurocientista, publica um artigo intitulado Biology and the future of psychoanalysis: a new intellectual framework for psychiatry (em português, “A biologia e o futuro da psicanálise: um novo referencial intelectual para a psiquiatria revisitado”)1, no qual aponta algumas sugestões para a psicanálise no século XXI. Entre outras coisas, Kandel propunha uma aproximação entre psicanálise e neurociência, com o objetivo de desenvolver novas pesquisas e teorias em psicanálise. Segundo Kandel, a neurociência poderia fornecer fundamentos empíricos e conceituais mais sólidos à psicanálise1. Um ano após a publicação do referido texto, em 2000, Kandel recebe o prêmio Nobel de medicina por suas contribuições à neurobiologia, introduzindo o conceito de plasticidade neural. Ainda em 2000, é realizado o 1º Congresso Internacional de Neuropsicanálise, em Londres, ocasião em que é criada a International Neuro-Psychoanalysis Society. Dentre os participantes desta sociedade, podemos citar, além do próprio Kandel, alguns dos nomes mais conhecidos no meio neurocientífico, como Antônio Damásio, Oliver Sacks, Gerald Edelman, V.S. Ramachandran, entre outros; além de psicanalistas famosos, como Charles Brenner e André Green.

Mark Solms, presidente da sociedade acima mencionada, vem publicando alguns trabalhos, desde o final dos anos 90 do século passado, nos quais apresenta um novo método de pesquisa em neurociência2. Este método, que tem sido a principal referência dentro do movimento neuropsicanalítico, consiste numa adaptação do método neuropsicológico tradicional, elaborado por Luria, para o estudo da atividade cerebral ligada aos fenômenos emocionais, que têm sido investigados pela psicanálise por mais de 1 século. Esta modificação no eixo de investigação das neurociências – dos processos cognitivos para os fenômenos emocionais – vem ocorrendo com maior freqüência nos últimos anos, impulsionada pelo desenvolvimento de aparelhos altamente especializados no mapeamento preciso da atividade cerebral, como é o caso do PET-Scan e da tomografia funcional por ressonância magnética (fMRI). O método neuropsicanalítico, introduzido por Solms, pretende unir as observações realizadas durante sessões de psicanálise com pacientes portadores de lesões cerebrais aos diagnósticos realizados com o uso das mais recentes tecnologias de mapeamento cerebral, a fim de descobrir quais áreas do cérebro correspondem aos fenômenos psíquicos descritos por Freud no decorrer de sua trajetória como psicanalista.

Como exemplo das descobertas feitas através do método neuropsicanalítico, podemos citar as primeiras experiências de V.S. Ramachandran com pacientes que apresentavam lesões no hemisfério direito do cérebro, portadores de um distúrbio conhecido como “anasognosia”. Estes pacientes são incapazes de reconhecer a paralisia de um membro, sintoma denominado de “negligência”. Após a aplicação de um pequeno volume de água gelada no ouvido esquerdo de alguns de seus pacientes, Ramachandran constatou que a negligência desaparecia completamente e só reaparecia depois de alguns minutos. Esta estimulação calórica pode ser interpretada “como sendo uma correção temporária e artificial do desequilíbrio de atenção entre os hemisférios”2 (p.57). O resultado deste experimento levou à descoberta de que o fenômeno da repressão, bem como o de outros mecanismos de defesa descritos na literatura psicanalítica, é mediado pelo hemisfério esquerdo do cérebro.

A princípio, constatamos que o método neuropsicanalítico parece ser eficaz na localização das áreas cerebrais correspondentes aos fenômenos inconscientes que influenciam a vida psíquica dos indivíduos. Além disso, este método vem preencher a lacuna observada por Kandel1 no que diz respeito à necessidade de uma base empírica para a psicanálise. No entanto, resta saber como o método neuropsicanalítico pode contribuir para um avanço no conhecimento conceitual dos processos inconscientes. Neste sentido, o método apresentado por Solms certamente não é o único capaz de fornecer as bases conceituais para a psicanálise, embora seja o primeiro a estabelecer a possibilidade de investigação científica experimental para tais conceitos. A psicanálise, através do método da associação livre e de suas técnicas próprias, vem desenvolvendo um arcabouço teórico vasto durante mais de 1 século. É evidente que nem todos os conceitos psicanalíticos poderiam ser validados pela neurociência3 através do método neuropsicanalítico; contudo, não podemos censurar o esforço que vem sendo feito pelos adeptos da neuropsicanálise para incrementar as pesquisas psicanalíticas.

Apesar de não podermos negar a iniciativa pioneira do método neuropsicanalítico, devemos questionar até que ponto a neuropsicanálise, enquanto método, pode contribuir para a teoria psicanalítica e para a psicoterapia. O grande mérito do método neuropsicanalítico, até o momento, foi chamar a atenção para a necessidade de um diálogo com a neurociência, uma vez que dispomos, nos dias atuais, de meios para investigar a mente humana com muito mais eficácia. Neste sentido, a neuropsicanálise, enquanto movimento, veio sacudir o meio psicanalítico, oferecendo um novo paradigma para a psicanálise no século XXI. Não obstante, o método neuropsicanalítico precisa de um arcabouço teórico que ofereça conceitos bem delineados e bem definidos, numa linguagem conceitual, científica. Freud nos ofereceu tais conceitos quando desenvolveu, paralelamente à prática psicanalítica, a sua metapsicologia. Esta representa a teoria psicanalítica pura, uma teoria sobre a mente humana. A metapsicologia freudiana foi construída para ser uma ciência4,5.

Tendo um método experimental e uma metapsicologia científica, resta acrescentar ao corpo da neuropsicanálise – enquanto movimento – uma psicoterapia de base neuropsicanalítica, a fim de oferecer condições completas para se pensar num novo paradigma. Neste sentido, a princípio, a psicoterapia de base neuropsicanalítica não funcionaria de maneira muito diferente da psicanálise tradicional. Ao afirmar isto, estamos considerando que a psicanálise clássica ainda tem muito a nos oferecer enquanto prática psicanalítica3. As técnicas psicoterápicas continuam se desenvolvendo na medida em que os sintomas de uma determinada época vão surgindo, em resposta às demandas e transformações da sociedade. No entanto, o modo de refletir teoricamente a respeito do material encontrado na prática clínica deverá ser reavaliado, uma vez que as descobertas neurocientíficas, especificamente as neuropsicanalíticas, teriam uma certa influência no desenvolvimento de uma metapsicologia científica4,5. Dentro de um certo tempo, as modificações e os acréscimos feitos à teoria metapsicológica iriam produzir seus efeitos na prática clínica, na elaboração de novas técnicas psicoterápicas.

Um dos grandes desafios da psicanálise na atualidade é compreender a dinâmica dos novos sintomas, como a depressão, a síndrome do pânico, a toxicomania, entre outros. Esta dificuldade não se dá apenas porque a dinâmica desses sintomas é nova, como muitos psicanalistas acreditam, mas vai além disso. Não adianta tentar adaptar os novos sintomas às velhas teorias explicativas, mas é necessário revisar a própria teoria, senão modificá-la radicalmente. Este parece ser também o problema enfrentado por algumas teorias quando se trata de transmiti-las a outrem. O problema não está somente na complexidade da teoria ou na dificuldade do sujeito em compreendê-la; o maior problema está no fato de que certas teorias já não estão de acordo com os paradigmas atuais, isto é, já não refletem o modo de pensar da atualidade. Boa parte desta dificuldade poderia ser resolvida se os psicanalistas estivessem mais abertos não só para as novas produções culturais, mas, sobretudo, para as novas descobertas realizadas no meio científico. Este é o desafio lançado para os psicanalistas atuais: pensar a psicanálise tendo como referência o paradigma científico de sua época.

 

REFERÊNCIAS

1. Kandel ER. Biology and the future of psychoanalysis: a new intellectual framework for psychiatry. Am J Psychiatry. 1999;156:505-24. [Tradução brasileira: Rev Psiquiatr. 2003;25(1):139-65.]

2. Kaplan-Solms K, Solms M. O que é a neuro-psicanálise: a real e difícil articulação entre a neurociência e a psicanálise. São Paulo: Terceira Margem; 2004.

3. Lyra CES. Neurociência e psicanálise: o início de um diálogo. Rev Neurocienc Brasil. 2004;1(3):184-6.

4. Andrade VM. Um diálogo entre a psicanálise e a neurociência. São Paulo: Casa do Psicólogo; 2003.

5. Lyra CES. Metapsicologia científica: revisando os fundamentos da teoria psicanalítica do recalque. Rev Neurocienc Brasil. 2005;2(2):84-9.

 

 

Carlos Eduardo de Sousa Lyra
Graduando em Psicologia e Filosofia, Universidade Federal da Paraíba (UFPB)
Cidade Universitária – Campus I
CEP 58059-900
João Pessoa – PB