O sensual mundo da animação, onde os desenhos são muito mais sexy que a vida real

Investigamos a fundo filmes feitos exclusivamente por mulheres que exploram desenhos animados totalmente para adultos.

IMAGEM DA ANIMAÇÃO FUTON

Há certos momentos em que o mundo parece operar mais como um desenho animado do que como um filme de ação. Como, por exemplo, durante os primeiros momentos da manhã, quando olhos semiabertos recebem curtos raios de luz embaçada no quarto, entre longos períodos de olhos fechados, amarrando pontas soltas do desvanecido sonho da noite.

Ou o que dizer do sexo, que em grande parte ocorre no reino da fantasia do que na realidade? Seja ao fantasiar sobre um provável encontro sexual ou ao fechar os olhos no meio do ato para absorver totalmente a sensação, o erotismo transpira na imaginação tanto quanto no corpo.

Por isso, faz sentido que os desenhos animados, com sua habilidade para materializar coisas que nunca ocorreriam na vida real, se destaquem ao capturar a fluidez, a alquimia e a sublimidade que surgem durante o sexo. O filme de animação deixa um amplo espaço para que as formas se transformem, multipliquem, tremam, derretam e efervesçam.

A exibição de um filme de animação independente em Los Angeles em julho deste ano se enquadra nesse gênero-nicho de “Animação Sensual”. Organizado por Jeanette Bonds, fundadora do Festival de Animação GLAS, o programa de uma hora e meia exibiu 12 curtas de animação, todos criados por mulheres. Algumas ainda são estudantes, algumas lendárias neste campo, mas todas sabem como desenhar o corpo em toda sua glória polimórfica.

IMAGEM DA ANIMAÇÃO MASTER BLASTER

Bonds fundou o GLAS em 2015 esperando criar um festival de animação e programa de subvenção para apoiar cineastas animadores independentes, sem influenciar seu processo ou conteúdo. Ela própria sendo uma animadora, Bonds conhecia o limitado alcance dos filmes de animação considerados de interesse geral.

“A animação ‘mainstream’ tende a ser voltada para famílias”, disse Bonds. “Ou pode ser comédia. No circuito independente, a animação pode ser voltada para adultos. Pode ser dramática, narrativamente diversificada, experimental. Há espaço para inovação com um tema ousado. Simplesmente há muito mais flexibilidade.”

Todos os anos, o GLAS promove um festival de animação independente que recebe de 1.400 a 2.000 inscrições de todas as partes do mundo, sendo que os animadores participantes incluem desde estudantes universitários até profissionais experientes. A cada festival, padrões emergem tanto em estilo quanto nos temas tratados. Bonds escolhe tópicos que surgem do leque de projetos apresentados e organiza programas complementares baseados nessa coleta. Este ano, ao que parece, os colaboradores não conseguiam deixar de pensar “naquilo”. E, assim, nasceu a “Animação Sensual”.

IMAGEM DA ANIMAÇÃO ANAL JUKE

“A sensualidade, acredito, oferece um pouco mais de flexibilidade do que a sexualidade”, disse Bonds. “Algumas [animações] são mais explicitamente sexuais, mas outras são sensuais no sentido tátil; são mais ternas estilisticamente.”

Depois de escolher a sensualidade como tema, Bonds fez pesquisas e complementou a programação com outros curtas de animação eróticos que considerou essenciais para o debate. O resultado é uma exibição fortuitamente composta apenas com cineastas mulheres, que exploram o corpo sensorial sob a visão do desenho animado.

“A animação é um meio que pode expressar a sensualidade e a viscosidade de nossos íntimos desejos de uma maneira que nenhuma outra forma consegue”, diz a descrição do GLAS sobre o evento. “Uma linha trêmula. Uma língua infinita. Um pedaço de fruta platônica lentamente dividido.”

A exibição em Los Angeles estreou com “Futon”, um suave curta da animadora japonesa Yoriko Mizushiri, de 33 anos. Em uma paleta silenciosa de marshmallow, o filme retrata uma mulher preguiçosamente dando boas-vindas ao dia, enrolada em um macio futon branco. Um par de hashis entra misteriosamente em cena, agarrando gentilmente o futon e descobrindo os dedos dos pés da mulher adormecida.

Logo depois, o futon se transforma em um par de lábios igualmente macios; então, uma porção de arroz com uma grossa fatia de sushi cor-de-rosa cai sobre o topo. O filme captura o ritmo glacial daqueles primeiros momentos de vigília, gastos cegamente na busca por café e água enquanto desesperadamente nega o fato de que sua cama não está, na verdade, presa ao corpo.

Mizushiri descreveu a principal intenção do seu trabalho como a evocação “do toque que você sente por meio da animação“, e “Futon”, certamente, evoca o sentimento de acordar na cama, sentir-se atordoado e decadente, uma pilha passiva de partes do corpo. O filme expressa perfeitamente a particular capacidade da animação de criar metáforas visuais — entre pantufas e rolinhos de sushi, dedos dos pés e montinhos de chantili — e conceber uma lógica visual fundada exclusivamente nessas analogias específicas.

“Com a animação, não existe uma realidade verdadeira”, disse Bonds. “Isso, penso eu, permite muita flexibilidade tópica e visual. O fato é que você não está vinculado a coisas reais. Você pode fazer qualquer coisa acontecer, dependendo de quais são suas habilidades. Qualquer coisa pode se transformar em outra coisa. Permite que você pense sobre as coisas mais abstratamente e, às vezes, se aprofunde um pouco mais no assunto.”

Embora “Futton” seja indiscutivelmente mais sensual do que sexual, existem certamente filmes mais explícitos na lista, como o sonho febril neon “Anal Juke”, de Sawako Kabuki‪, que captura enfaticamente a sensação de realmente precisar usar o banheiro em termos muito menos elegantes. “Secreção viçosa, viçosa está saindo do ânus”, uma mulher de cabelo verde lamenta à medida que uma batida elétrica pulsa ao fundo, interrompida por uma ocasional sirene. “Eu quero cagar!”, ela acaba gritando, enquanto um infinito exército de corpos cor-de-rosa sem cabeça, com orifícios anais para cabeças, dispara rumo ao espaço. É tão estranho como parece.

Em uma entrevista ao site Cartoon Brew, Juke explicou que o curta foi inspirado por um sonho que ela teve logo depois de terminar com seu namorado e passar por uma “dolorosa depressão“. A tristeza da ruptura se mesclou, em seu estado idílico, com a ansiedade causada pela ameaça de um terremoto e reações nucleares no Japão, criando uma absurda onda de gritos elétricos centrados em torno de uma iminente tempestade de merda. O homem com um ânus no lugar do rosto é o ex. Vai entender.

Mizushiri e Juke representam a crescente geração de animadoras experimentais, sendo aclamadas em seu campo, mas com pouco reconhecimento fora dele. A exibição também traz exemplos de animadoras de uma geração mais antiga, quando obter o sucesso como mulher era ainda mais difícil e raro.

Essas animadoras pioneiras incluem Ruth Lingford, de 64 anos, e Maureen Selwood, de 71 ― ambas participantes da exibição. A obra de Selwood, “Odalisque: Three Fantasies of Pursuit” (Odalisca: Três Fantasias Perseguidas, em tradução livre), gloriosamente imagina que as linhas podem dançar por sua própria vontade, à medida que simples desenhos de contorno se movimentam, se transformam e se multiplicam ao som de uma ópera ao fundo.

A elegante visão começa com uma mulher sonhando acordada na cama, dando voltas ao redor de seu peixinho dourado na tigela de vidro. Ela então se vê cantando uma ária no palco, jogando conversa fora em um restaurante, participando de uma dança no fundo do mar com um peixe mutante e, finalmente, dando à luz a um bebê que pode ter sido gerado por um cisne. Tudo trazido em nítidas linhas brancas e negras, pontuadas por rajadas de cores pintadas à mão; a humilde, mas intoxicante técnica do curta eclipsa o poder de muitas tecnologias contemporâneas.

IMAGEM DA ANIMAÇÃO LOVE GAMES

Bonds estava compreensivelmente hesitante em afirmar que as mulheres operam mais neste domínio de animação sensual do que os homens. Apenas aconteceu que, enquanto selecionava a série, ela percebeu que as mulheres estão criando e têm criado o trabalho de maior qualidade desse tipo.

“Estávamos ansiosos em trazer uma exibição de filmes feitos por mulheres que não fosse apenas ‘uma exibição de mulheres para servir de exemplo'”, disse Bonds. “Todos esses filmes mostram um aspecto sensual da feminilidade. Claro que nem todas as cineastas fazem filmes dessa natureza, mas existe algo que vale a pena observar sobre essa ideia mais suave e abstrata de sensualidade que estamos vendo aqui, criada por cineastas mulheres de várias gerações.”

Não há uma maneira fácil de resumir a forma pela qual a sensualidade não é apenas descrita, mas também sonhada nos filmes selecionados por Bonds. Um gira em torno de um animal com capacidade para se regenerar indefinidamente. Outro destaca a obsessão de uma mulher em arrancar os pelos do peito de seu amante. Um condutor de trem excitado que simplesmente adora esfregar os freios e puxar as alavancas. Uma claymation de texturas se movendo lentamente, desprovida de determinada forma ou narrativa.

E, ainda assim, existem certos sentimentos que unem a diversidade de filmes exibidos. Uma tatilidade, uma suavidade, um senso de movimento em constante mudança. A crença de que o erotismo ocorre tanto entre os ouvidos quanto entre os lençóis. Que todos os sentidos entram em jogo à medida que dois corpos escaneiam a estática entre eles.

Como afirma o GLAS: “Este programa tem a intenção de ser visto como um grupo, lado a lado no escuro, quase se tocando”.

IMAGEM DA ANIMAÇÃO TRAM

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.