Conversando com Sapienza sobre “a escrita psicanalítica e a psicanálise da escrita”

Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.50 no.92 São Paulo jun. 2017

CONVERSANDO E ESCREVENDO

 

Conversando com Sapienza1 sobre “a escrita psicanalítica e a psicanálise da escrita”

 

 

Evelyn Finguerman PryzantI; equipe editorial

IMembro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP

 

 


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O relato seguirá a sequência das falas do encontro. Agradecemos à secretaria, pelo suporte, e a todos os participantes, especialmente ao estimado colega e mestre Sapienza.

Ana Clara Duarte Gavião

O tema deste número do Jornal abre-se para a dimensão metapsicológica da escrita, como também para as dimensões clínica e artística, todas relacionadas.

Uma das primeiras associações que me ocorreram quando se propôs o tema da escrita foi a lembrança de uma conferência proferida por Antonio Sapienza em Ribeirão Preto, no lançamento da revista Berggasse 19 (2010), periódico da sbprp. Com base na consideração pela tradição da transmissão da psicanálise pelas vias oral e escrita, Sapienza apresentou relações instigantes entre psicanálise e literatura, privilegiando uma visão épica que nos interessou retomar neste número do Jornal.

Bernardo Tanis2

Meus cumprimentos à nova equipe editorial do Jornal de Psicanálise e meus votos de uma fecunda gestão.

Tenho um grande carinho pelo Jornal, de cuja equipe editorial fiz parte no passado. É um espaço privilegiado para o livre debate de ideias sobre a formação analítica e para iniciação à escrita clínica e ensaística por parte dos membros filiados e de todos aqueles que se sentem motivados a dar sua contribuição.

A arte ou o ofício, como alguns escritores preferem denominá-la, de escrever expressa, capta, cria algum saber sobre o humano. Sabemos que nenhum texto dá plenamente conta da experiência, mas também acreditamos que o sentido excede o texto escrito e se multiplica associativamente, gerando ressonâncias a partir da dimensão polissêmica que lhe é inerente. Um texto sempre deixa um resto desconhecido, que dá margem a novas interpretações. Clínica e texto comportam um plus de sentido que mobiliza o autor/psicanalista, gerando no leitor um efeito interpretante que o move a novas descobertas numa cadeia que não se esgota. O texto é potência viva.

Tenho certeza de que o convidado de hoje, nosso caro Sapienza, vai promover a partir de sua fala um interessante e aberto diálogo em torno dessa função da linguagem que nos tornou capazes de representar aspectos preciosos do acontecer humano.

Um ótimo encontro para vocês.

Tiago da Silva Porto3

Ao conceder um espaço de escrita, portanto de pensamento, o Jornal de Psicanálise não só dá voz aos membros filiados para falarem de um lugar que é inerente à própria formação, mas também convoca à associação, a escrever e pensar sobre a formação, sobre o porquê de uma associação dentro de outra associação maior, um espaço para ser aproveitado, para ser produtivo, e inaugura uma forma de pensar, o olhar crítico de alguém que vai tomando forma, que se submete à formação e entra em sintonia com o que Freud acreditava sobre a formação, a Ausbildung, um tomar forma e não se deixar formatar de um modo alienante, dado de cima para baixo.

A escrita, tarefa difícil, tem um papel fundamental nisso, já que poucas pessoas têm talento inerente para a escrita psicanalítica. No sentido freudiano, trata-se de um trabalho de transformação, levando de um lugar para o outro, que implica um investimento; como Fédida propõe, a escrita pode ser a quarta perna da formação, um exercício necessário.

Para quem está em formação também deveria ser uma obrigação pessoal, não encarada como uma obrigação dada pela instituição. Foucault entende a escrita não como uma expressão de um talento, mas como trabalho, uma obrigação inerente ao sujeito, própria do sujeito. Para ele a escrita se inscreve entre o devaneio e a realização, está entre a realidade e a fantasia, e vai além, ultrapassa, multiplicada a partir do devaneio; é a captação do excesso que se alinha ao pensamento freudiano da sexualidade, da criatividade no conceito de sublimação, ou seja, a possibilidade de um exercício de expansão de mente.

Nesse sentido, o Jornal de Psicanálise, a Associação dos Membros Filiados e o nosso Instituto têm-se mostrado fomentadores de pensamento crítico, e isso é muito bom, muito bom para quem está em formação ter a possibilidade de voz, de situar o seu desejo na ordem da verdade.

Vera Regina J. R. M. Fonseca4

Todos concordam que, para o psicanalista, escrever é importante; mas também pode ser uma tarefa pesada. Escrever certamente é pensar, uma forma específica de pensamento: é recriar, organizar, descobrir aspectos que nos passaram despercebidos do nosso próprio trabalho. Também é se engajar numa conversa com nosso interlocutor interno, o que demanda o exercício de se posicionar no lugar do leitor: um exercício de geometria espacial no qual criamos linhas entre as posições de três pontos diversos – o autor, o interlocutor interno e o leitor – à semelhança do espaço triangular descrito por Britton ao se referir à situação edípica.

É uma aventura no espaço tridimensional que traz a possibilidade de integrar elementos desconhecidos de nossa relação com o paciente e conosco. E de trazer para o espaço externo, compartilhado, experiências vividas no espaço interno. Nesta projeção temos que traduzir várias vezes tais experiências: do sem palavras para a linguagem oral, coloquial, depois para a escrita, mais formal.

Aceitando as regras do jogo, traçamos o ponto de encontro entre o interno e grupo, e o que é da experiência privada vai se transformar em pública e conversar com as ideias dos que nos precederam.

Ao escrever, vamos em direção ao mundo, e o impulso narcísico implícito neste se lançar é temperado pela possibilidade de se transformar e, ao mesmo tempo, manter sua singularidade, no desafio de se fazer entender. Seria como “dançar conforme a música”, mas criando nossa própria dança, um exercício entusiasmante tanto para o indivíduo quanto para a Instituição.

Desde a compreensão mais refinada dos mecanismos que operam na mente humana até a simples descrição do que ocorre numa sessão, escrever é nossa participação mais concreta no organismo vivo que é uma Instituição psicanalítica, enriquecendo sua vida científica. Ao iluminar áreas cindidas do analisando e do analista, a escrita revela nossa relação com o outro e mobiliza os objetos internos, permitindo ao leitor também ser tocado por essas sucessivas transformações.

Já os fatores que impedem a escrita, que a sufocam na fonte, a meu ver dizem respeito ao terror de se sentir inviável, criticado, reproduzindo a inviabilidade de tornar-se adulto para os pais, de ser declarado inviável como analista, ou pouco criativo frente a um sonho de produção muito original e esfuziante. É um terror que paralisa. Esta supressão engloba tanto a ação supervisora que a escrita certamente tem, quanto sua função terapêutica para o autor, para o leitor e para a comunidade, além de conter a potência transformadora que caminha do talking cure para o writing cure.

Que este número do Jornal de Psicanálise possa mobilizar aqueles que estão paralisados, estimular os que estão em andamento e proliferar o número dos que já escreveram bastante.

Antonio Sapienza

Primeiramente destaco a visão da natureza épica da escrita, como se o pano de fundo de cada um de nós tivesse que lidar com a cesura da morte, como passageiros e testemunhas de inevitável exílio em nosso planeta. Por isso o senso comum costumava dizer que as palavras voam e os escritos podem permanecer para a posteridade.

Escrever implica uma dinâmica de heroísmo e é sempre parcialmente autobiográfico, pois há em todos os casos uma implicação de algo da vida pessoal do autor. A vida de Miguel de Cervantes, por exemplo, foi carregada de situações complexas, pessoais e familiares, tendo sido prisioneiro e sofrido ferimentos de guerras, combatente em inúmeras batalhas, e passado por perseguições devido a dívidas econômicas. A dinâmica traumática faz uma correlação dessas experiências como contendo algo de natureza biográfica, experiências emocionais dos vínculos básicos de Amor (L = Love), Conhecimento (K = Knowledge) e Ódio (H = Hate), em suas versões positivas e negativas que o estimularam a escrever O cavaleiro Dom Quixote (1605-1615). Também talvez possamos nos valer da biografia do escritor Públio Virgílio Marone (70 a.C. -19 a.C.), que a princípio se interessou por questões pastoris, contidas nas Bucólicas e Geórgicas; à medida que Virgílio penetra na política, na guerra e nos desdobramentos políticos de Roma, consegue escrever sua obra épica Eneida (composição em 12 livros, escritos nos 12 últimos anos de sua vida).

Em segundo lugar, quando se lida na experiência clínica, vale a pena desenvolver atenção específica a estruturas que estão enclausuradas e denominadas “camadas de natureza autística”. Tais configurações contêm um pensamento embrionário, como resíduo arqueológico, como ruínas ou débris que sobraram de “catástrofe primitiva”. A parceria analítica sofrerá vicissitudes de um crescendo de dor mental visando resgates do pensamento embrionário sequestrado a fim de trazê-lo para torná-lo viável e pensável na experiência da vida mental.

Mas, para tanto, o analista precisa ter uma experiência analítica pessoal de sua “quase morte mental”, e o analista que não tiver esse tipo de consentimento e elaboração dificilmente conseguirá atingir esses níveis. “Construção”, texto de Freud de 1937, poderá servir de paradigma proporcionando condições realistas para contermos a pressa de “tudo saber, nada entender e tudo interpretar”. Refiro-me aqui à diferença entre o visar do analista, voltado basicamente para curar e eliminar os sintomas, e a intuição bem treinada psicanaliticamente que possa vir a ser acompanhada de momentos de silêncio penetrante rumo às questões e falhas de desenvolvimento mental em camadas arqueológicas maligna e violentamente comprimidas. Isso pressupõe a consciência de que a própria análise do analista também nunca é completa; resta-nos aprender da experiência emocional na companhia do único colaborador presente na sala de análise, isto é, o paciente. O jogo da vida envolve confrontos e vai prosseguir. Prezados colegas analistas, façam seus lances e apostas ao ainda desconhecido de cada sessão!

Os cuidados na sala de análise focalizarão a qualidade de vida em evolução envolvendo os riscos e destino de cada parceria em face do inevitável reviver de situações traumáticas e do correspondente trabalho do luto. O destino como um jogo vai impor marcas e momentos de sorte e azar, entre a destrutividade de cada um e a busca do crescimento mental, que é regra que seguirá até a fim da vida. O destino vai entrar tanto na questão de cada um, como na comunidade da qual o sujeito faz parte. A questão se dá entre passar o tempo apenas reclamando, ou tomar a decisão de arregaçar as mangas e se propor a “fazer o melhor possível em condições adversas”.

Quem se dispuser com ousadia e prudência a manter acesas as chamas desse combate visará promover uma mudança mais estrutural no confronto com nossas ilusões e doces esperanças de perpétua acomodação. Conseguirá corajosamente crescente capacidade de não apenas “sentir” dor mental, mas “sofrê-la de fato”, para alcançar mudanças diante de frustração e assim tolerar responsabilidade em evitar evasões e rotas de fuga. Trata-se concisamente de maturação na trilha do caminho de buscar verdades crescentes e favorecedoras de natureza “mística”, ou seja, a de transformações em direção a “O”, desde um dos três vértices: estético, mítico-religioso e científico.

O estudo das tragédias demonstra os constantes ferimentos traumáticos, mentais e corporais, em guerras, fortes conflitos no casamento e nas instituições. O que mantém a guerra é a vingança, que poderá permanecer suprimida e potencializada, qual perigo intuído em violência potencial, como na Lei de Talião. A teoria da energia quântica permite contato com a energia atômica em cada um de nós, e poderá ser usada para destruição implosiva e/ou explosiva, bem como para finalidades construtivas, já que é a mesma energia que abarca a ética e seu uso; pensem na diferença entre o uso da energia atômica para tratar o câncer e construir usinas atômicas com empregos diversificados na construção de mísseis e armas atômicas. Enfim, trata-se de cultivar sabedoria integrada a capacidades para atravessar as dificuldades da vida com entusiasmo calibrado, o que é bem diferente de exuberantes soluções maníacas.

É importante ainda diferenciar experiência em psicanálise clínica, que requer condições para a leitura de mundo interno nas relações de intimidade da parceria analítica, de outras propostas em conversas e exercícios sobre psicanálise, tais como aulas, palestras, supervisões e seminários clínicos.

Penso na escrita qual um hábito de saúde mental, a exemplo de usar uma grade pessoal como instrumento auxiliar para observar problemas fora da sessão, construindo um ateliê pessoal reservado e privativo para dedicar-se à escrita, como exercício de ginástica mental visando elucidar particularidades de dor mental, escotomas, fracassos em sessão ou conjunto de sessões de análise, pesadelos, lapsos mentais e vivências de terror e desastres, acontecimentos trágicos, fúria e explosões de impaciência.

Teço agora minhas considerações finais e brevemente sinalizo os fatores da função da escrita. Quando se estuda uma função é preciso saber e considerar quais são os fatores nela implicados. Proponho alguns recortes que existem na experiência da escrita, apoiado na observação de natureza psicanalítica de quem estuda a relação do indivíduo com o grupo, visando a prevalência de grupo de trabalho, infiltrado por supostos básicos de idílio, parasitismo e guerra. O analista deverá exercitar-se como ginástica mental, fora da sessão clínica, a fim de desenvolver e construir uma grade de observação para apurar seu senso crítico e intuitivo em face das questões inquietantes de seu desempenho em sala de análise. Parece-me valiosa a observação de Bion ao destacar nossa sanidade mental, que tem como pano de fundo a constante oscilação dentro da relação entre o narcis-ismo de vida e o social-ismo, e assim posta sumariamente: Narcis-ismo  Social-ismo.

Nossa cidadania em vida política poderá tomar raízes ancoradas em oscilações entre a posição esquizoparanoide e a posição depressiva: PSD. Entre as duas posições poderá haver certa área de conforto, qual refúgio de letargia permanente. Há quem se estabeleça nesse território, como um limbo, em estado de mente dominado por sono (S = sleep), sem o despertar da consciência acordada (W = awake), em que se ocultam fantasias onipotentes de natureza psicótica, contendo elevado grau de inocência violenta, arrogância e estupidez, que favorecem estados de mente equacionados a zumbis e mortos-vivos.

Outro elemento essencial e relevante é a noção da temporalidade. Entre a cesura do nascimento e a cesura da morte estende-se de modo geométrico o arco da vida, lembrando-nos nossa mortalidade, a qual nos dá noção dos limites e fronteiras relacionados à valoração e ao uso que cada um de nós possa fazer do “tempo mental” e do “espaço mental”.

A ultrapassagem da posição depressiva nos desafiará na direção de pensamento analógico e linguagem sintética, guardando estreita relação com um painel de linguagem da metateoria.

Fabrício Santos Neves5

Fabrício – Ao seu estilo, Sapienza, queria lhe fazer algumas provocações.

Sapienza – Quando você diz isso, eu não tomo como provocação, mas como evocação, porque a provocação é um sinal de que você já atravessou a minha área de fogo.

Fabrício – No texto-convite que recebemos por e-mail para este encontro, me chamaram a atenção expressões como “não escrita”, “não simbolização”, “não sonho”. Ao ler isso, sinto que partimos de um pressuposto. Como responsável pelo Departamento Científico da AMF, instituí um prêmio remunerado de escrita, pelo qual poucos colegas se interessaram, o que parece aliar-se à ideia da não escrita, da não simbolização e do não sonho. Por outro lado, nossa Sociedade conta com um Jornal de Psicanálise, a revista Ide e podemos incluir, ainda, a Revista Brasileira de Psicanálise, com a maioria do seu corpo editorial e com muitos colegas dessa casa publicando ali. Se ultrapassarmos os muros de nossa Instituição e considerarmos as editoras especializadas em psicanálise, os trabalhos publicados nos departamentos de pós-graduação das universidades, os artigos em outras revistas, são dezenas, inúmeras publicações, o que impressiona, já que em outras áreas de conhecimento é muito difícil encontrar tantas publicações. Sem discutir a qualidade desses trabalhos, surge um problema nesse cenário: será que não escrevemos demais?

Sobre a escrita e a formação do analista

No último número da RevistaBrasileira de Psicanálise, Ana Maria de Azevedo pergunta o que nos leva a refletir e escrever, e responde “as nossas clínicas, nossos congressos, nossas recordações e experiências”, argumentando a favor da ideia de que escrever faz parte do processo psicanalítico, o que me parece uma afirmação radical. No entanto, minha questão é: existe mesmo um caminho a seguir na trajetória do analista que está indissoluvelmente marcado pela escrita?

Para Sapienza, a escrita trata da continuação da análise, da área traumática, da elaboração do luto. Na sua proposição de “ateliê pessoal terapêutico” a dor mental é determinante na escrita.

Será que nós podemos pensar que existem outros caminhos para além da escrita no percurso constitutivo de um analista? A arte da escrita, como a arte da psicanálise, pode ser aprendida, mas a escrita é necessariamente parte do processo analítico para todos?

Sobre a escrita em si ou os modelos de escrita

Há uma especificidade, um gênero de escrita próprio da psicanálise? Num trecho do Journal de 2002, Ogden nos diz que “certos autores escrevem o que pensam, já outros pensam o que escrevem, parecendo, até, que esses últimos exercem o pensar durante o próprio ato de escrever, como se os seus pensamentos brotassem da conjunção da caneta com o papel, e o texto fosse se desenrolando por si só”. É nessa direção – dos que pensam durante o ato de escrever – que Ogden inclui boa parte dos escritos de Freud, pelo fato de ele não tentar esconder as trilhas por onde seu pensamento transita, seus pontos de partida falsos, suas incertezas, suas inversões de pensamento, que encontramos no meio de uma única oração.

Freud nos legou uma nova maneira de pensar a experiência humana, por escrito. Cada um de seus escritos é, ao mesmo tempo, uma explicação de um conjunto de conceitos e uma demonstração da criação de uma nova maneira de pensarmos sobre nós mesmos e de nos experienciarmos.

Há uma especificidade própria à escrita analítica? Nosso gênero seria por excelência uma narrativa clínica?

Celso Antônio Vieira de Camargo

Comentários ao trabalho

“Nascimento e crescimento de uma publicação psicanalítica”

Com texto rico e estimulante, Sapienza nos propõe modelos para reflexão sobre a escrita da psicanálise e a psicanálise da escrita.

Suas observações apresentam duas facetas interessantes: a primeira diz respeito ao desafio de descrever experiências emocionais por meio da escrita. É um desafio enorme. Bion, em Memória do futuro, escreve: “É difícil conceber algo mais livre de freios e restrições do que os pensamentos e sentimentos. Mas, ao se dar a eles uma expressão escrita, a liberdade de pensamento já se desgastou. A liberdade do pensamento comunicado não é absoluta em momento algum”.

A segunda faceta diz respeito ao fato de podermos enfrentar todos os receios de nos expor ao narrar a nossa própria versão de uma experiência psicanalítica. Temos que lidar com o establishment externo e com nosso establishment interno. Sapienza nos fala da presença de uma central atômica, seja no casal, na análise, entre o analisando e o analista, ou dentro do analisando. A presença explosiva da central atômica interna em cada um de nós, com suas possibilidades destrutivas e criativas.

Com isso, quero dizer que a central atômica, tendo a possibilidade de causar desastres e guerra civil, mas também de levar a soluções criativas, está sempre potencialmente presente, principalmente na nossa área, em que abordamos a vida psíquica, ou seja, o meio pelo qual circulam todas as nossas impressões sobre o mundo externo e interno. Isto é vital. Se esse meio estiver turvo, tudo fica turvo. Se a central atômica estiver defeituosa, tudo fica comprometido e ameaçado. Aliás, a Eneida, como nos diz Sapienza, é calcada sobre a Ilíada, de Homero, que se inicia com a terrível guerra de dez anos entre gregos (aqueus) e troianos, por causa da traição de uma mulher, Helena, casada com Menelau, que se apaixona por Páris Alexandre, príncipe troiano. Das turbulências da vida de um casal emergiu a guerra de Troia.

O trabalho de Sapienza nos mostra uma importante ferramenta para falarmos sobre a vida emocional: o uso de modelos para uma aproximação ao que vivemos. As teorias, como dizia Charcot, citado por Freud, são boas, mas elas não devem impedir que os fatos existam. Os mitos, contidos na narração das epopeias, como a Eneida, a Ilíada, a Odisseia, e posteriormente publicados como tragédias, fornecem uma possibilidade de contato com a vivência da sessão, com nossa vida interna, e Freud nos mostrou isso claramente com sua abordagem do mito de Édipo. Os mitos complementam as teorias, já que nosso objeto de estudo, a vida mental, o inextenso, como dizem os filósofos, é fluido, e tem a qualidade dos sonhos. Bergson, o filósofo intuicionista, dizia que, para se aproximar da vida mental, as teorias que tenham a pretensão de serem exatas falseiam a observação. Uma certa imprecisão é necessária e mais condizente com a característica onírica de nossa vida psíquica. Embora, como dizia Bion, seja necessário que o psicanalista conheça, e bem, as teorias e os mitos que utiliza.

Vemos nesses relatos míticos como a “central atômica” funciona: a todo instante, surgem rivalidades hostis, ciúmes, inveja, clivagens, idealizações, interferindo em nossa vida. E da nossa capacidade de lidar com essas emoções criativamente depende a evolução de cada um de nós.

Agora, podemos transpor tudo isso para nossa relação com a escrita psicanalítica: quando escrevemos, além das dificuldades inerentes à transformação daquilo que observamos para a escrita, temos de lidar com nossas fantasias sobre o outro. Sartre dizia: “o inferno são os outros”. Entendo isso como uma maneira de se referir às emoções, à turbulência que o contato com o outro provoca em nós. E na escrita temos um interlocutor imaginário, que podemos sentir como amistoso, ou hostil. Independentemente da realidade, que pode confirmar nossas fantasias, ou não. Esta turbulência pode se constituir numa área de dificuldade para escrever. Estamos mexendo com a central atômica, e as angústias aparecem. Mas outro dia encontrei um modelo que me pareceu interessante: quando nosso braço adormece, nós não o sentimos. É quando o sangue volta a circular que ele dói. Quando estamos vivos é que a dor aparece.

Na própria Eneida temos um exemplo desse tipo de dificuldade: Virgílio queria uma obra perfeita. Ao perceber seu trabalho incompleto, queria destruí-lo, já na hora da morte. Sua “central atômica” não permitia essa imperfeição. Se o escravo a quem ele pediu que a Eneida fosse destruída seguisse sua recomendação, teríamos perdido essa preciosidade. O pedido de Virgílio, capaz de obra desse quilate, é também exemplo de como um superego cruel pode assassinar a criatividade. E nos mostra as clivagens em ação na vida mental. Criar e destruir simultaneamente.

Por outro lado, a escrita é uma maneira de conversarmos, em primeiro lugar, com nós mesmos. Alguém já disse que, ao escrever, estamos continuando nossa experiência de análise pessoal, já que na escrita temos de estabelecer um confronto entre o que sentimos e o que escrevemos. E esse confronto, como mostra o texto do dr. Sapienza, tem também uma dimensão criativa muito enriquecedora. E também misteriosa: como surgem as ideias novas? Como aparece dentro de nós uma ideia que não foi dita nem pensada, ao menos desse jeito peculiar?

A jornada de Eneias, de Odisseu, a própria descoberta da psicanálise mostram esse percurso incansável da criatividade na busca de novos objetivos. Melanie Klein falava no “ímpeto vanguardeiro da libido”. Bergson se refere à evolução criadora, e ao elã vital. E a escrita tem um papel seminal nesse movimento que nos empurra para a frente. Sem a herança de Freud, onde estaríamos nós neste momento?

 

Conversa grupal

Sapienza – Sem considerar respostas que assassinem as perguntas, penso no destino dos pensamentos selvagens, dos estados de mente de não sonho, não simbolização, que se relacionam com os pensamentos à procura de quem os acolha, para poder haver um significado diante de situações absurdas que acontecem na vida.

Na falta de tolerância para o que é intolerável, a lesão que existe quando não existe significado traz uma destruição de ego violenta, e às vezes é necessário ter certa disposição de passar por experiências dessa natureza, de tolerar aquilo que é intolerável, o que não quer dizer masoquismo, que não se refere à questão da quantidade de criatividade, mas da qualidade. Como a diferença entre quantidade de vida e qualidade de vida.

O contato com os autores clássicos – Shakespeare e outros -, a maioria das pessoas não tem. Quem não lê não escreve. Não é que os avanços nas incursões da tecnologia e sua rapidez não tenham valor, mas é diferente quando se aprende a ler com calma, a escutar com calma a linguagem que não se restringe às palavras, nela entra a música. Em análise de criança entram os desenhos, os jogos e, de alguma forma, de acordo com o grau de simbolização que existe em algumas supervisões, você precisa improvisar.

Uma supervisionanda uma vez me disse que era muito interessante o que eu lhe dizia, mas que eu a inibia. Eu saí da sala e a deixei sozinha, porque se tratava de uma identificação projetiva em que o fator de inibição era a minha pessoa. Então, eu saí e deixei que ela ficasse livre. Daí ela começou a me chamar: “Sapienza, Sapienza”. Não foi uma atuação, mas uma dramatização considerando que eu era o fator da inibição. Há outras formas de comunicação, como a pintura, o desenho, o canto, tudo depende do que acontece na sala.

Em vez de ficarmos paranoicos quando vamos escrever, podemos fazer como fez Umberto Eco, que inventava um inimigo para desarmar uma paranoia: você pega a pessoa que vai te arrasar, o pior inimigo, inventa um demônio e começa a dialogar com ele. Aquilo que se chama, em matemática, de geometria projetiva.

Se há uma dispersão numa sessão, pode ser importante comunicar ao paciente que não se está encontrando o fato selecionado, aquilo que dá significado a uma dispersão quando entram questões de inibição, sintoma e angústia.

Imaginem o que foi Freud ter escrito um livro sobre interpretação dos sonhos sem ter um analista. Ele teve que ler e assistir ao Édipo Rei, de Sófocles, para lidar com fantasias de parricídio e incesto, e publicar os sonhos dele. Ele não publicava algum conteúdo quando achava que alguém seria prejudicado. É um modelo interessante, porque, além da elaboração dessas fantasias mais arcaicas, ao mesmo tempo ele se livra do tutor Fliess, que, até mesmo, chegou a fazer uma cirurgia nele, e, tendo de atravessar os ataques histéricos das pacientes, pensou em largar a psicanálise. Na teoria das transformações, Bion vai insistir em se a transformação é em psicanálise ou é em estética, em psicose, ou é uma folie à deux.

James Joyce escreveu Ulisses fazendo com que tudo se passasse num dia só. Na época, elaborando questões de censura, escreveu O retrato de um artista quando jovem. Eu resolvi falar dos retratos de um artista quando velho, porque tem gente que acha que não vai ficar velho, que tem sempre uma dieta para fazer e reconquistar a forma e que não vai envelhecer.

P6 1 – Há, por um lado, a preocupação com a responsabilidade e a dificuldade da escrita e, por outro, as questões sobre o pensamento selvagem, que demandam do analista um desenvolvimento pessoal e conceitual ligado à cesura. Essa responsabilidade com os elementos constituintes dessa dimensão faz com que se mude o foco para as questões mais íntimas, como no caminho que a análise faz construindo os vínculos para que o alimento emocional tenha espaço de crescer, para sustentar uma cesura.

Uma atribuição importante para o Jornal de Psicanálise diz respeito à missão de preservar o patrimônio psicanalítico. Italo Calvino aborda a importância de se lerem os clássicos, porque através dos séculos existe uma fonte cristalina que permanece, e cada vez que se retorna a ela é o mesmo que encontrar uma fonte com um frescor que alimenta a cada volta.

O desafio do corpo editorial é preservar, através da escrita, em tempos difíceis, a paciência, a tolerância e o cuidado com o outro, que, nos tempos de hoje, é tarefa difícil. Essa iniciativa de abrir este espaço para um debate revela uma criatividade que vem para impulsionar o desenvolvimento da escrita.

P 2 – Como se fosse uma “carta-convite presencial” para podermos começar a conversar.

P 3 – A questão da escrita passa pela forma com que se escreve, para que se escreve e a relação entre o que a gente escreve e a Instituição. Achei bonita essa ideia do herói que escreve porque luta contra o tempo, luta contra a morte. E na escrita você é o herói que se dispõe a essa saga, que ultrapassa o perigo da morte, senão não é herói, mesmo que a encontre, porque em geral o herói encontra a morte.

Penso no que impede a escrita, e na falta de coragem. Sob um clima de controle, a crítica destrutiva impede qualquer tipo de criatividade, e é o que impera nas nossas relações. Eu escrevo todos os dias da minha vida e leio bastante. Noto a questão do medo implicado na escrita. É preciso ter mais espaço para ser burro, contar piada, falar besteira. Porque é assim que se escreve, ninguém é gênio. Só existe uma maneira de escrever: sentar e escrever.

Nossa ciência é ficcional e ela só nasceu por causa da escrita, enquanto as outras áreas têm a matemática, por exemplo. Freud criou tudo pela escrita, e é muito difícil não repetir esse caminho, porque ela é um instrumento da nossa ciência. Você pode ser um psicanalista sem escrever, mas você não pode transmitir ideias e alargar o campo em que trabalha sem a escrita. Manter a transmissão pela oralidade traz o risco de o conhecimento acabar se perdendo, e a escrita tem um poder de condensação de pensamentos que a oralidade não tem.

A escrita remete a um tipo de poesia, de polissemia, sendo muito difícil a oralidade conseguir conter aquilo de que a escrita é capaz. A escrita é um enorme exercício polissêmico de rigor. Fabio Herrmann dizia que a psicanálise é o melhor casamento entre a medicina e a literatura. Não sei se eu faço psicanálise, mas no meu consultório faço literatura, porque eu permito isso, e meus pacientes se narram, e estou disposta a ouvir sua narração, em que eles criam os seus mundos.

P 2 – Entendo que de fato temos de “escrever” – representar em palavras -, publicando por escrito ou não. Uma interpretação ou intervenção psicanalítica é uma publicação. Nossa função psicanalítica implica ampliar os processos secundários, na linguagem de Freud, ou a função alfa, na linguagem de Bion, ou, ainda, outras teorias que possam considerar o desenvolvimento da capacidade de simbolização de nossas experiências emocionais, do contato com a dor psíquica.

Sapienza – E também com a alegria, não só com o sofrimento.

P 3 – Sim, tudo o que precisa ser dito pelo autor. Octavio Paz traz a ideia de que a melhor ou a pior literatura é um inventário de seu tempo. A nossa escrita psicanalítica, a leitura psicanalítica também são um inventário do nosso tempo.

P 4 – Uma elaboração que a escrita psicanalítica permite se dá por meio da reflexão sobre o que está sendo construído como pensamento, principalmente no sentido editorial. Podemos pensar no corpo psicanalítico de um jornal de membros filiados, aberto à experiência da inexperiência, aberto à construção do pensamento psicanalítico por meio da escrita. Além do trabalho individual, é importante o trabalho de um grupo que se reúne para pensar sobre a elaboração dos trabalhos, pensar na construção do conhecimento em psicanálise, que precisa sempre estar sendo checada, isto é, procurando saber o que é importante, do ponto de vista editorial, para a construção do conhecimento psicanalítico pela escrita. É fundamental um acolhimento para novas abordagens que vão surgindo, pela importância de se voltar para o que não se sabe, de se ter em mente essa abertura para os trabalhos extraterritoriais, como Bion trabalhando com grupos em outro território, trazendo para dentro da psicanálise essas inter-relações. Como, também, a observação de Winnicott no campo da pediatria, que migra para dentro da psicanálise.

Infelizmente o que tem acontecido na psicanálise – e isso não é uma casualidade – é que se tem dificultado muito a abertura ao diálogo com outras áreas de informação, um trabalho de interface.

Pensar nesses recursos de construção de conhecimento, com vias abertas de acesso ao que não se sabe em psicanálise, principalmente do ponto de vista editorial, é importante para o saber da epistemologia, da filosofia, de como se constrói o conhecimento. É interessante saber qual filosofia subjacente está orientando a avaliação de um trabalho e permitir reexaminar constantemente essa filosofia. A publicação de um trabalho traz a potência de ele poder ser checado e lapidado através de um olhar psicanalítico.

P 2 – A ideia para o Jornal de Psicanálise é exatamente essa, de não ficarmos restritos à burocratização das atividades editoriais, e tomarmos os trabalhos como estímulo para pensarmos nossas próprias experiências de escrita em psicanálise. Contamos com a colaboração de vocês no envio de trabalhos…

P 5 – Tem também uma época de escrita, um tempo em que há certa concentração de escrita.

P 6 – Vou retomar a situação da supervisionanda do Sapienza que estava inibida, e o supervisor saiu da sala e deixou-a só. Fiquei com essa imagem. É interessante pensar essa saída como ato analítico. Articulada à escrita, a saída da sala cria a tensão da solidão, e, quando a supervisionanda o chama novamente, denuncia uma tensão que é inconciliável.

O ato de escrever sempre encara certa inibição, sempre existe um outro. E o interessante dessa saída é que deixa claro para o supervisionando que, se ele não está num pensamento solipsista e tem um outro, isso implica uma tensão. Penso na Instituição podendo fornecer um ato analítico. Escrever é difícil, mas se faz necessário atravessar essa inibição e poder se comunicar.

Sapienza – Você está falando da função de um filtro.

P 6 – Da função de algo que sustente e aponte a tensão.

Sapienza – Depende da experiência que a pessoa tem com a solidão, que pode ser sentida como rejeição ou perseguição. Nem sempre a solidão é uma má companhia.

A busca de crescimento mental se dá até o fim da vida – não até o fim da análise -, devido ao que Freud destacou como “instinto de morte”. Na velhice se tem a oportunidade de observar uma morte mental com o corpo bem e o contrário, o corpo se despedaçando com lucidez mental. Às vezes a derrocada é dos dois. Destaco isso para que possamos ter certa atenção e observação dos fenômenos do suicídio e do autoboicote.

P 7 – E é importante se pensar nessa função de sustentação de uma situação de ansiedade, ou conflito, associando com a experiência da supervisão do dr. Sapienza, que fala da espera de uma função de sustentação para o conflito, ou para essas ansiedades, ou qualquer outro nome para essa experiência. E talvez essa sustentação, essa responsabilidade, seja a função que todos nós temos com os nossos colegas, praticando o exercício dessa função na Instituição com eles e com os nossos fantasmas.

Sapienza – É aí que entra a questão de pesquisar quais são os nossos fantasmas, porque não se trata de uma fantasia.

Os seminários de Bion, no final da vida, lidam com a questão da fama, do famous analist. Você tem todo o direito de ter uma camisa – bioniana, freudiana, camisa de futebol -, desde que isso não vire uma camisa de força, porque isso lhe tira a respiração, você fica fanático. A ideia de refúgio está ligada a questões de perseguição, interna e externa, com ideologias, e a reunião de pessoas se dá numa dinâmica de gêmeo imaginário.

P 8 – O tema regente que a Associação dos Membros Filiados tem trabalhado é “Psicanálise e processo autoral”, articulando a ideia de que para escrever não é preciso ser escritor, mas é preciso ser autor. Da mesma forma, se espera que no processo analítico o sujeito se torne autor de si mesmo, e isso vale para o processo de supervisão, vale para a Instituição, que pode funcionar como um superego opressor, ao considerarmos, por exemplo, como são conduzidos os seminários teóricos.

Questionamos se o Instituto está formando analistas autores, com pensamento crítico sobre as próprias leituras, ou está formando leitores movidos às demandas dos coordenadores, analistas seguidores de outros analistas.

P 9 – A palavra “autoria” carrega em sua raiz “auto” o sentido de próprio, singular, de poder dar voz a si mesmo, de ser autor de si mesmo, aquilo que o trabalho de análise fomenta. A escrita, que é um instrumento de singularização, parece ser muito pouco povoada de autores, o que é uma perda.

É preciso, sem dúvida, considerar as dificuldades da escrita, da transposição da experiência às palavras, da solidão que é escrever. Quantos de nós já não escreveram milhões de artigos que ficaram só na cabeça, lidando com a perda vivenciada quando um artigo não é publicado?

Penso na importância de a Instituição poder sustentar um membro filiado em sua solidão, porque me impressiona a prática comum entre os colegas de contar com a ajuda da supervisão para escrever o relatório, por exemplo. É interessante como as pessoas ficam dependentes, já que a experiência na Instituição nos favorece uma dispersão muito grande nas linhas teóricas oferecidas nos seminários, que é riquíssima.

Mas chega uma hora em que é preciso pensar com autoria, e a escrita é um instrumento muito fecundo, um espaço privilegiado para isso. E acho importante refletir sobre de que maneira a Instituição não perpetua uma formatação da própria escrita.

P 2 – E como a Instituição se atém à importância de promover a interlocução com o autor interno, a interlocução com a própria autoria.

P 5 – Acho que existe uma analidade, de estar sempre no eixo do outro, sob uma crítica. Eu escrevo por associação livre, acho que é um estilo, poder atravessar o dia a dia marcado pela cultura e escrever essa experiência, ver o que há para elaborar, ou por evacuar. Me faz pensar se o simples fato de pôr em palavras já é uma secundarização, se escrevemos para elaborar e depois lançar um olhar psicanalítico para a experiência. E acho que vale a pena ter coragem, apesar da falta de apoio dos colegas.

P 10 – Escrever é sempre um risco, uma exposição muito grande de si próprio à Sociedade, que já é uma Instituição persecutória, de modo geral. Esse Encontro do Jornal é importante como um aquecimento para as pessoas escreverem.

P 11 – Acho importante relembrar os autores clássicos que sempre nos alertaram de que a maior resistência é do analista. A resistência ao novo, à mudança, àquilo que não é da tradição, é um alerta importante para um jornal que tem um corpo de avaliação de trabalhos, para que se dê muita atenção a isso.

P 4 – A questão do território em que você explora a psicanálise e a formação é muito importante, mas tem um efeito colateral: parece que a crítica, um outro ponto de vista, é vista como negativa, destrutiva, e não como um acréscimo. O debate é fundamental, ver de um outro ângulo; de acordo com cada instrumento conceitual a clínica pode ser pensada de uma forma totalmente diferente. O perigo é que a escrita se torne um fogo de artifício, um trabalho que seja concluído e pare por aí, sem se discutir mais sobre ele.

P 12 – Há uma diferença entre os trabalhos que se publicam nas universidades – as teses acadêmicas – e os trabalhos da psicanálise, nos quais o essencial é que possam conter a experiência do autor.

P 2 – Essa é a cientificidade do nosso modelo, e é isso que nos apaixona tanto na psicanálise – o espaço para a singularidade e para a intersubjetividade. Esperamos contribuir para o desenvolvimento do compromisso com a construção do conhecimento psicanalítico e com a interlocução interdisciplinar.

 

 

Ana Clara Duarte Gavião. gaviaoanaclara@gmail.com
Celso Antonio Vieira de Camargo. celsovieira@uol.com.br
Evelyn Finguerman Pryzant. epryzant@yahoo.com
Geraldo Cutcher Galender. galender@terra.com.br
Lídia Maria Chacon de Freitas. lidiafreitas@terra.com.br
Marcella Monteiro de Souza e Silva. marcellasmss@gmail.com
Patrícia Nunes. patricia.nunes.psicanalise@gmail.com
Paula Freitas Ramalho da Silva. paulafrs@yahoo.com.br
Paulo Duarte Guimarães Filho. pduartegf@uol.com.br
Stephania A. Ribeiro Batista Geraldini. stebatistag@usp.br
Sylvia T. Pupo Netto. sylpupo@uol.com.br
Yone Vittorello Castelo. ycastelo@terra.com.br
1 Membro filiado ao Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP.
2 Membro efetivo e presidente da SBPSP. Texto gentilmente enviado por e-mail.
3 Membro filiado ao Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP. Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (São Paulo).
4 Membro efetivo e analista didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP. Diretora do Instituto “Durval Marcondes”.
6 Membro associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP.
6 P indica um participante.