A visitação do Real nos fatos clínicos psicanalíticos

Jornal de Psicanálise

versão impressa ISSN 0103-5835

J. psicanal. vol.50 no.92 São Paulo jun. 2017

RESENHAS

 

A visitação do Real nos fatos clínicos psicanalíticos

 

 

Tiago da Silva Porto

Membro filiado ao Instituto de Psicanálise “Durval Marcondes” da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, SBPSP.Membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo. tsp@uol.com.br

 

 

 

Autor: Ricardo Trapé Trinca
Editora: Edusp, São Paulo, 2016
Resenhado por: Tiago da Silva Porto, São Paulo

A visitação do Real nos fatos clínicos psicanalíticos é obra derivada da tese de doutoramento de Ricardo Trapé Trinca, defendida no Instituto de Psicologia da USP. Logo de início, o autor nos propõe um posicionamento ético diante do trabalho psicanalítico, um fazer clínico que busca ir além de tornar o inapreensível minimamente figurável. Ele nos propõe, sobretudo, explorar, naquilo que for passível de figuração, o seu pano de fundo escuro, aquilo que nas teias de nosso discurso nos é ainda inacessível.

A palavra “Real” é tomada pelo autor, inicialmente, em seu sentido corriqueiro. Real é aquilo que realmente existe. Mas, neste trabalho, a palavra será elevada em alguns aspectos que nos transcendem e que, portanto, nos escapam. Simultaneamente, passará a ser iluminada em sua negatividade. Assim, o Real assume uma existência peculiar, pois é aquilo que existe como uma realidade, mas que não se apresenta. É aquilo que nos atravessa e que está para além do espaço e do tempo, como afirma Gilberto Safra na apresentação que faz da obra. Trinca busca não restringir a palavra “Real” a uma conceitualização psicanalítica já feita, mantendo-se assim livre para sua exploração clínica. Constrói, contudo, relações profundas com a noção de realidade última (“O”) desenvolvida por Bion. O autor nos conduzirá por um Real habitado pela falta e pela aridez, em que a solidão originária, o desterro, a orfandade e o nada vão se apresentar.

Portanto, nessa ética analítica, a escuta deverá não só se direcionar para a possível apreensão dos espaços informes e infinitos do Real, como também buscar cultivar a manutenção desse espaço constantemente aberto, para que com base nele o Real possa continuamente se manifestar em seu vazio.

Em seu percurso narrativo, Trinca nos conduz por essa aridez humana com uma escrita poética que proporciona leitura fluida e prazerosa, mas cujo propósito vai além de uma oferta simplesmente estética ao leitor. A poesia aqui é tomada como elemento propiciador, como um dos fios de sustentação para sua tentativa de acesso ao inatingível. Esse fio, juntamente com outros – como a filosofia de Heidegger, as narrativas literárias e a dramaturgia de Beckett -, mescla-se à metapsicologia de Freud e Bion, tecendo um mapa para a manifestação do desamparo essencial na clínica. O autor nos oferece uma figurabilidade possível do que virá; figurabilidade esta que carrega em si também um método, com base na linda imagem colhida do poeta Juliano Garcia Pessanha, na qual ele aproxima o traçado da biografia humana a uma aranha que, ao tecer sua frágil teia, tem como pano de fundo a imensidão da noite (p. 72).

A peça Esperando Godot, de Beckett, apresenta outra trama, na qual dois personagens desolados, sem história e sem lugar, aguardam em uma encruzilhada árida a chegada de alguém chamado Godot. Não sabem exatamente quem é ele, por que o esperam e nem mesmo se ele virá. “Nada a fazer”: esta fala inicia e finda esse clássico do teatro do absurdo. Resta apenas aos personagens a angustiante espera. Trinca toma a figura do ausente Godot para apontar o cerne do absurdo humano – nossa (in)capacidade de lidar com a ausência do objeto, com sua real impermanência, transitoriedade e mutabilidade. Além disso, o autor busca, em seu trabalho, iluminar o movimento clínico marcado pelos encontros e desencontros com esse “terceiro excluído”, no qual a passagem desse “outro” em toda a sua alteridade (sua visitação na clínica) se dá não pela sua figurabilidade, mas pela presença de seu silêncio ruidoso. E ainda convoca o analista a evocar e, se possível, dar alguma luz a essa alteridade, cultivando assim um campo para nascer aquilo que não foi plantado, mas que está lá desde sempre.

Para tal trabalho pressupõe-se que o analista seja capaz não só de suportar, mas também de desenvolver essa negatividade e evocar esses aspectos do Real. Trinca propõe um método que vais se apoiar na noção de palimpsesto1 formulada por Bion, articulada sob a ideia de que o Real, em sua ontológica negatividade, atravessaria cada camada desse palimpsesto. A função analítica buscará identificar as descontinuidades entre as camadas de inscrições e assim manter-se aberta para aquilo que está oculto. Com esta abertura, que se dá pela capacidade do analista de sustentar ele mesmo o desabrigo, o paciente poderá ter uma apreensão mais ampla de sua realidade mental e suportar seu desamparo. Assim, o analista deve tolerar a espera até que apareça um fato selecionado, quando então poderá identificar os buracos e, talvez, neste momento, ligar os fios de pensamentos inconscientes uns aos outros.

Trinca nos oferece três belas narrativas clínicas como possibilidade de expressão desses encontros e desencontros com visitações do Real – histórias que se erguem como teias, para dar vazão aos espaços vazios entre os fios, pano de fundo escuro de uma verdade intraduzível; histórias latentes que jamais foram narradas, de uma alteridade radical e impronunciável.

Inicialmente, descreve uma paciente confrontada com sua solidão primordial, com sua orfandade intolerável e real; aqui o trabalho analítico será feito em busca de fornecer algum testemunho dessa ausência. Em seguida, nos conta a história de um homem cujos vínculos eram vividos como entretenimento, de forma que não havia para ele qualquer sentido nas experiências de relação humana. Sua vivência nos aponta uma solidão originária, sustentada pela incapacidade de sonhar uma outra cena que lhe possibilite “ser pertencente”, fora da exclusão e solidão da cena primária. Trinca retorna, neste caso, para Esperando Godot, mostrando que os dois personagens desolados também perderam a capacidade de sonhar. A peça é retomada também para nos indicar que, no papel do espectador, convocado a manter sua aptidão imaginativa, impossibilitada nos personagens, está depositada a capacidade de imaginar uma outra cena que poderia acontecer em outro palco, onde aí, talvez, poderá se tornar possível uma apreensão desse sentimento de solidão. Poder sonhar uma relação triangular em que não se é excluído. A tarefa da psicanálise se aproxima do espectador, em busca de gerar condições para que o paciente seja capaz de sonhar seus sonhos não sonhados.

Por fim, Trinca nos conta a história de um rapaz que vaga no vazio das ruas desabitadas, mas habitado por uma estranheza em relação a “um outro” que surge dele mesmo, retirando sua familiaridade com o mundo e deixando-o diante de seu desabrigo e risco existencial. O medo da castração surge com força e dirige-se àquilo que o indivíduo mais deseja: paternidade, coisas, terra e pessoas. A inquietude ocorre pelo pressentimento da negatividade do Real, daquele pano de fundo que está fora da nossa biografia.

Ao analista é desejável que tenha um sentimento de respeito e amor a esta verdade e, portanto, ao Real. O Real acontece não como uma fatalidade, mas sim como uma necessidade, uma necessidade de verdade pela mente humana. É neste acontecimento da verdade do sujeito que irrompe a alteridade. O Real acontecerá por meio do que Trinca nomeia uma quaternidade negativa, estruturada com base nesses quatro vértices: uma solidão originária, o nada, o desterro e a orfandade. E o trabalho analítico seria ajudar o analisando a transcender o véu de ilusão que se interpõe entre ele e este Real. A ilusão assim poderá ser confrontada com aquilo que ilude, mostrando-se, desse modo, como uma existência possível.

Luís Claudio Figueiredo, no prefácio dessa obra, apresenta uma forma de entendimento da noção de “saúde mental” que pode reposicionar nossa técnica, a direção da “cura”, em outros sentidos. Propõe uma forma de entendimento que não parta mais das oposições saúde e doença ou vida e morte, mas que introduza a noção de suplementações não totalizantes. A saúde seria mais um devir do que um estado, de onde o Real não se exclui. Trinca, a partir desta ética da psicanálise, reafirma uma técnica analítica, na qual caberia ao analista tolerar e esperar. Cultivar um espaço continente para a elaboração de pensamentos; pensamentos que transformem o inóspito negativo e possam finalmente reivindicar nosso pensar. A psicanálise se oferece como uma possibilidade de reconciliação com o inefável da experiência emocional e como criação de um espaço de abertura que possibilite a visitação do Real. Aí, talvez, o Real possa ser traduzido, não porque exista algo específico a ser traduzido, mas porque se torna necessário dar alguma figurabilidade a essa presença indomável e traumática.

Trinca nos convida a trilhar com coragem para que não nos esquivemos em nossa prática clínica em direção a esta tormenta, o Real. Instrumentaliza-nos com um fazer que não nos deixe excessivamente angustiados, sustentado na bela construção que faz do caminho da tempestade.

“O caminho da tempestade é o caminho que alcança a turbulência que vem em nosso encontro” (p. 180). A tarefa do analista será a de ser guardião desse caminho, buscando manter o paciente em direção à tempestade, ou seja, permitindo que ele alcance aquilo que o toca, propiciando alcançar, assim, sua essência.

Na tessitura desse livro, Ricardo Trapé Trinca nos traz sua reflexão com o intuito, bem-sucedido, de sinalizar um caminho por campos muitas vezes esquecidos pela psicanálise, o que torna este trabalho um importante balizador na manutenção de um norte em nossa práxis, inevitavelmente cheia de desvios.

 

 

Recebido: 12/5/2017
Aceito: 16/5/2017

 

 

1 Palimpsestos eram pergaminhos nos quais a escrita era raspada e apagada para que outra escrita pudesse ser feita em seu lugar. O modelo se refere a um palimpsesto com várias camadas de escrita sobrepostas.