A noção lacaniana da subversão do sujeito

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Fonte: A noção lacaniana da subversão do sujeito

Psicologia: Ciência e Profissão

Print version ISSN 1414-9893

Psicol. cienc. prof. vol.22 no.4 Brasília Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S1414-98932002000400008

ARTIGOS

 

A noção lacaniana da subversão do sujeito1

 

 

Wilson Camilo Chaves

Professor assistente do Departamento das Psicologias (DPSIC) da Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ). Doutorando e Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos [UFSCar). Licenciado em Filosofia.Psicólogo. Psicanalista

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RESUMO

O presente trabalho visa elaborar a idéia de sujeito em Lacan. Inicialmente, determinado pelo “aspecto social”, em seguida pela “dimensão imaginária”, e por último, pela “dimensão da linguagem”, subvertido assim ao significante. Após ter feito essa digressão, esclarece-se, a medida do possível, a idéia lacaniana do sujeito, através da análise da noção de subversão do sujeito. A análise dessa noção consiste, basicamente, em um comentário do texto “Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano”.

Palavras-chave: Subversão do sujeito, teoria lacaniana, Psicanálise.


ABSTRACT

The present work that seeks to elaborate the subject’s idea in Lacan. Initially, determined by the “social aspect”, later by the “imaginary dimension”, and last, for the “dimension of the language”, thus subverted to the significant. After this digression, it is clarifield, as much as possible, Lacan’s subject idea, through the analysis of the notion of the subject subversion. The analysis of that notion consists, basically, in a comment of the text “Subversion du Sujet et Dialectique du Désir dans I’lnconscient Freudien”.

Keywords: Subversion of the subject, lacanian theory, Psychoanalysis.


 

 

Desde a Tese de 1932, Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade, Lacan se preocupou com o sujeito enquanto tal na sua individualidade, percebendo aí o quanto tal individualidade é efeito do meio social, meio humano por excelência. Mas Lacan não concebe o sujeito, aqui, como uma estrutura passiva, e, sim, como uma estrutura reacional, que se produz e se desenvolve num meio. Ou seja, nas palavras de Ogilvie (1991), “um sistema de relações, de significações e de elementos que formam uma totalidade” (p. 66). Desse meio social, Lacan especifica mais o meio parental, os acontecimentos da infância, bem como as “interações inconscientes entre os indivíduos” (p. 269) como determinantes de sua personalidade e da psicose. O delírio, nesse contexto, “deve ser compreendido em relação ao desenvolvimento histórico da personalidade do sujeito”(p. 296). Assim, já em 1932, Lacan verifica que os delirantes apresentam distúrbio de linguagem, tornando-se necessário que se introduzam os métodos da Lingüística para analisar as manifestações escritas da linguagem delirante. Apurando mais a determinação do sujeito, Lacan, nos textos de 1938, Os Complexos Familiares, e de 1949, O Estádio do Espelho como Formador da Função do Eu, elabora a idéia da determinação do sujeito no imaginário. Nesses textos, Lacan retoma o que havia começado a postular na Tese de 1932, que o homem é “um animal de nascimento prematuro” e, assim, carente, faltoso, pois é incapaz de viver “sozinho”. A partir desse texto sobre os complexos familiares, Lacan introduz a idéia de que o homem é social, não porque quer, mas por necessidade. Assim, o sujeito é capturado primeiramente pela imago da mãe, em seguida pela presença do intruso irmão e, finalmente, pela sua própria imagem refletida no espelho, que o alienará, para sempre, nesse outro que é ele mesmo. Neste Estádio do Espelho, segundo Lacan, há uma tentativa, por parte do sujeito, de resgatar e refazer o vínculo perdido, apartado pelo nascimento e presentificado no desmame.

Aqui é importante ressaltar que, para Lacan, o estádio do espelho não consiste em uma etapa a ser superada, mas em uma situação que coloca o eu como um outro, dimensão essencial, responsável pela estruturação da fantasia. O sujeito aqui se constitui, separando-se. Para Lacan, nesse sentido, a relação imaginária é, por excelência, uma relação dual, onde eu e tu se confundem. Nessa relação, impõe-se um terceiro termo, conceito mediador, que irá determinar cada termo, ordenando-os, assim como distinguindo-os. E, portanto, a dimensão da simbolização que faz essa passagem da relação dual imediata para a relação ternária, mediata. O acesso do sujeito à linguagem, segundo Lacan, se dá no registro do simbólico, que é para ele o momento da constituição do sujeito propriamente dita. O mundo do simbólico é, por excelência, o lugar do sujeito. É nesse contexto que comentamos a conhecida frase lacaniana “o inconsciente é o discurso do outro”, sendo esse não o outro que se evidencia na imagem especular, mas o Outro enquanto alteridade absoluta, ou seja, o sujeito é agora constituído pelo Outro (Autre),representante da linguagem. O sujeito é, então, efeito do significante, pois está submetido à sua lei. Esse é o momento do Édipo, em que se interpõe à relação dual, imaginária por excelência, uma relação ternária, simbólica, instaurando o inconsciente. O inconsciente, nesse contexto, é definido por Lacan (1998) no texto Função e Campo da Fala e da Linguagem em Psicanálise como a “parte do discurso concreto, como transindividual, que falta à disposição do sujeito para estabelecer a continuidade de seu discurso consciente”(p. 260).

Assim, o que falta à disposição do sujeito é da ordem do significante. São nos deslizes dos significantes que advêm as formações do inconsciente (sonhos, chistes, atos falhos, sintomas etc.). E a subversão do sujeito se concretiza, justamente, nesse aspecto, pois o o significante “é aquilo que representa o sujeito para um outro significante”. E o que os significantes significam? O significado de todos os significantes é inicialmente idêntico, ou seja, é desejo e castração. O significado comum do desejo e da castração, nas palavras de Juranville (1987) “se apresenta conforme a diferenciação primordial do ser homem e do ser mulher”(p. 48, grifos nossos). Lacan, no texto Subversão do Sujeito (1998), afirma que o plano em que atua a pura articulação do significante é o inconsciente, e o conteúdo do inconsciente é da ordem do significante. A característica comum que identifica os significantes é o fato de eles “preexistirem por sua diferença em relação a todos os demais”. Mas há um significante que é “aquele para o qual todos os outros significantes representam o sujeito: ou seja, na falta desse significante, todos os demais não representariam nada” (p. 833). Esse significante só pode ser, segundo Lacan, “um traço que se traça por um círculo, sem poder ser incluído nele. Simbolizável pela inerência de um (-1) no conjunto dos significantes”(op. cit., p.833). Assim, tal significante não pode ser pronunciado. E, segundo Lacan, é “isso que falta ao sujeito para se pensar esgotado por seu cogito, ou seja, o que ele é de impensável” (op. cit., p.834).

A castração, nesse sentido, refere-se a esse fato de que não é possível uma adequação total do sujeito ao objeto. Ou seja, o Outro falta, há pelo menos um significante que não se pronuncia. E no complexo de castração que Lacan encontra a mola mestra da própria subversão, “pois, propriamente desconhecido até Freud, que o introduz na formulação do desejo, o complexo de castração já não pode ser ignorado por nenhum pensamento sobre o sujeito”(op. cit., p. 835). A radicalidade da visão psicanalítica do sujeito está enfatizada nessa afirmativa lacaniana. O sujeito se subverte na medida em que ele não tem acesso ao Gozo pleno, ou seja, o sujeito é, por isso, castrado: não há Outro do Outro. O Outro (A) é também barrado, o que Lacan grafou com ; o Outro é faltoso, falha e, portanto, é também castrado. O Gozo é limitado por uma interdição imposta pela Lei. Trata-se aqui da lei do significante, que “em si não barra o acesso do sujeito ao gozo; ela apenas faz de uma barreira natural um sujeito barrado. Pois é o prazer que introduz no gozo seus limites,…” (op. cit., p. 836). E o que há no prazer humano que limita o gozo? Segundo Lacan, a resposta só pode advir do fato de a castração envolver um sacrifício do falo. Isto é, “é a simples indicação desse gozo em sua infinitude que comporta a marca de sua proibição e, para constituir essa marca, implica um sacrifício: o que cabe num único e mesmo ato, com a escolha de seu símbolo, o falo” (op. cit., p. 837). Tal escolha só é possível, afirma Lacan, porque o falo é “nega-tivizado em seu lugar na imagem especular. E isso que predestina o falo a dar corpo ao gozo, na dialética do desejo”(op. cit., p. 835)2 . Assim, tal negatividade do falo na imagem especular se refere ao fato de o pênis não ficar erecto o tempo todo.

Dessa maneira, faz-se necessário distinguir entre o princípio do sacrifício, que é simbólico, e a função imaginária que se sacrifica a ele, mas que o vela, ao mesmo tempo em que lhe dá seu instrumento. Com isso, Lacan quer distinguir entre o falo como simbólico, representado pela letra maiúscula Phi [Φ]e como imagem, representado pela letra minúscula [φ]. A função imaginária, segundo Lacan, “é aquela que Freud formulou como presidindo o investimento do objeto como narcísico (…). A imagem especular é o canal adotado pela transfusão da libido do corpo para o objeto”. (op. cit., p. 837). O órgão erétil simboliza o lugar do gozo, mas enquanto “parte faltante na imagem desejada: por isso é que ele é igualável ao -1 da significação, produzida acima, do gozo que ele restitui, pelo coeficiente de seu enunciado, à função de falta de significante (-1)”(op. cit., p. 837). Há uma correlação natural entre o falo imaginado como castrável e a limitação do gozo, pela razão de que ao órgão erecto, pode-se dizer, se liga à proibição do gozo: “A passagem do (-φ(phi minúsculo) da imagem fálica de um lado ao outro da equação do imaginário e do simbólico positiva-o, de qualquer modo, ainda que ele venha preencher uma falta. Por mais que seja suporte do (-1), ali ele se transforma em (Φ(phi maiúsculo), o falo simbólico impossível de negativizar, significante do gozo. Ele é essa característica do Φ que explica tanto as particularidades da abordagem da sexualidade pela mulher quanto o que faz do sexo masculino o sexo frágil no tocante à perversão” (op. cit., p. 838).

Assim, afirma Lacan que o neurótico mais teme é a castração, pois ele desconhece o papel dela. Isto é, em seu esforço imaginário contra uma castração imaginária, o neurótico falha em apreciar o genuíno papel do falo simbólico e a necessidade da castração simbólica como preço de qualquer satisfação do sujeito para o outro. Mas o neurótico não quer isso, pois ele imagina que o Outro demanda sua castração. E, segundo Lacan, “a castração é o que rege o desejo tanto no normal como no anormal”. E é isso que a experiência analítica evidencia. Há, aqui, dessa maneira, a prevalência do desejo sobre o gozo. Nas próprias palavras de Lacan: “a castração significa que é preciso que o gozo seja recusado para que possa ser atingido na escala invertida da Lei do desejo” (op.cit., p. 838). Recusar o gozo significa recusar a união primordial. É nesse sentido que a subversão do sujeito pode ser entendida. Assim, jamais, na perspectiva lacaniana da Psicanálise, será possível uma união entre um sujeito e um objeto, entre um sujeito e o Outro. O fato de o sujeito se submeter ao significante, à sua Lei, que é a Lei do desejo, que implica desejar sempre, descredencia esse mesmo sujeito à fusão total com um outro. Assim, a Psicanálise, sob a ótica de Lacan, não faz a apologia do amor impossível, mas sim a da impossibilidade da união total entre dois, da fusão de dois em um.

O comentário desse texto da Subversão do Sujeito consiste em um trabalho eminentemente difícil; assim, na medida do possível, procuramos elucidar que, para Lacan, é o sujeito do Cogito cartesiano que é subvertido. Descartes inaugura, com o Cogito, o sujeito da ciência. Koyré (apud Kaufmann 1996), em Entretiens sur Descartes, resumiu o método de Descartes nas seguintes palavras: Tara conhecer o real devemos começar por fechar os olhos, tapar os ouvidos, renunciar ao tato, devemos, ao contrário, nos voltar para nós mesmos e procurar em nosso entendimento idéias que sejam claras para ele. É assim que encontramos os fundamentos da ciência natural e descobrimos a linguagem que a natureza fala. E é nessa linguagem – a da matemática – que a natureza responderá às questões que, em suas experiências, a ciência poderá lhe fazer. Não há algo de estranho nisso? E até de extremamente pouco crível e paradoxal?” (pp. 508-509).

Assim, segundo Koyré, tal método cartesiano o levou, pela primeira vez, a definir o real como o impossível. Nesse sentido, em Etudes d’Histoire de Ia Pensée Scientifique, Koyré afirma que “acreditamos que a lei da inércia deriva da experiência e da observação, embora, evidentemente, ninguém jamais tenha podido observar um movimento de inércia, pela simples razão de que tal movimento é inteira e absolutamente impossível” (op.cit. p. 509). Assim, no entendimento de É. Porge (apud Kaufmann 1996), “o cogito é o ponto de partida lógico da explicação do real pelo impossível, ele liga o fundamento de uma ciência à certeza de um sujeito” (op., cit., p. 509). É, nesse aspecto, que o sujeito do Cogito se figura como aquele sob o qual os psicanalistas operam.

Dessa maneira, a divisão do sujeito da enunciação e do sujeito do Cogito se estende em uma outra, aquela entre saber e verdade. E o que Lacan demonstrou foi justamente um sujeito do inconsciente, que não sabe sobre si mesmo, que se advém entre os significantes, manifestando-se nos chistes, nos atos falhos, no sintoma, etc. Nas palavras de Lacan (apud Kaufmann 1996): “A divisão do sujeito e do sintoma é a encarnação desse nível em que a verdade recobra seus direitos, e sob a forma desse real não sabido, desse real exaustivamente impossível que é esse real do sexo” (p. 509).3

Embora Lacan tenha formulado essa idéia, acima citada, num texto posterior a esse da Subversão do Sujeito, percebemos que Lacan já deixa muito claro que o sujeito subvertido é aquele que se sujeita à lei do significante, lei do desejo, que implica desejar sempre. Assim, no final desse texto da Subversão, Lacan opõe a demanda ao desejo e este ao gozo, enfatizando, assim, o quanto é essencial ao sujeito aceder à castração para gozar através da lei do desejo.

 

Referências bibliográficas

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Kaufmann, P.(org.). (1996). Dicionário enciclopédico de psicanálise, o legado de Freud e Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.         [ Links ]

Ogilvie, B. (1 991). Lacan: a formação do conceito de sujeito. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Wilson Camilo Chaves
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Tel.:35-32911369.
E-mail: camilochaves@uol.com.br

Recebido 12/07/00
Aprovado 20/10/01

 

 

1 Síntese da Dissertação de Mestrado, defendida em março de 1999, no Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Metodologia das Ciências do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São Carlos.
2 No Seminário, As Formações do InconscienteLacan afirma que “o falo não se trata de uma forma ou de uma imagem ou de uma fantasia, senão de um significante, o significante do desejo”Mais à frente, nesse mesmo texto, Lacan afirma que ojaio é o significante do desejo do outro. “O falo representa a intrusão do impulso vital como tal, o que não pode entrar na área do significante sem ser barrado, isto é, recoberto pela castração”. A castração, por sua vez, se introduz no nível do Outro “no lugar em que se manifesta a castração no Outro, isto é, na mãe – e isto tanto para a menina como para o menino -… É o desejo do outro que é marcado pela barra (barre)”(LACAN, Jacques. Las formaciones del inconsciente Transcripción de]. B. Pontalis. Selection de Oscar Masotta. (op. cit., p 112-3)).
3 Lacan Jacques.Les Problèmes Cruciaux de la Psychanalyse Apud PORGE, É. In: Kaufmann, Pierre, op. cit., p. 509. No início do texto A Ciência e a Verdade, Lacan indaga a respeito do status do sujeito na Psicanálise, afirmando que tal status é da ordem da fenda, da Spaltung. Assim, nesse mesmo texto, Lacan afirma que o sujeito, que aqui estamos considerando, é o sujeito do significante, querendo com isso dizer que ele se distingue totalmente do indivíduo biológico, bem como de qualquer “evolução psicológica classificável como objeto da compreensão”. Lacan, com essa afirmativa, justifica o lugar que a linguagem ocupa em sua teoria (Cf. Lacan, Jacques. A ciência e a verdade. In: Escritos. op. cit., p. 890).

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