O Amor— o amor pela vida, a mais poderosa e a mais ativa de todas as molas – Arthur Schopenhauer

O Amor— o amor pela vida, a mais poderosa e a mais ativa de todas as molas

Não tenho que me servir dos meus predecessores, nem que os refutar. Não foi pelos livros, foi pela observação da vida exterior que este assunto se me impôs, e tomou lugar no conjunto das minhas considerações sobre o mundo. — Não espero a aprovação nem o elogio dos amorosos que procuram naturalmente exprimir com as imagens mais sublimes e etéreas a intensidade dos seus sentimentos: a esses, o meu ponto de vista há de parecer demasiado físico, demasiado material, por muito metafísico e transcendente que ele seja no fundo. Possam eles notar, antes de me julgarem, que objeto do seu amor, que hoje exaltam em madrigais e sonetos, mal lhes teria obtido um olhar, se tivesse aparecido dezoito anos antes.

Qualquer inclinação terna, seja qual for a atitude etérea que afete, tem, na realidade, todas as suas raízes no instinto natural dos sexos; e não é mesmo outra coisa senão esse instinto especial, determinado, e perfeitamente individualizado. Posto isto, se observarmos o papel importante que o amor representa em todos os graus e em todas as suas fases, não só nas comédias e nos romances, mas também no mundo real, onde é, com “o amor pela vida, a mais poderosa e a mais ativa de todas as molas”; se pensarmos que ocupa continuamente as forças da parte mais jovem da humanidade, que é o último fim de quase todo o esforço humano, que tem uma influência perturbadora nos negócios mais importantes, que interrompe a todo o momento as ocupações mais sérias, que por vezes altera os maiores espíritos, que não tem escrúpulo em lançar as suas frivolidades nas negociações diplomáticas e nos trabalhos dos sábios, que chega até a introduzir as suas cartas meigas e as suas ‘madeixazinhas’ de cabelo nas pastas dos ministros e nos manuscritos dos filósofos, o que o não impede de ser todos os dias o promotor dos piores e mais intrincados negócios — que rompe as mais preciosas relações, quebra os mais sólidos laços, torna vítimas ou já vida ou a saúde, a riqueza, a situação e a felicidade, faz do homem honesto um homem sem honra, do fiel um traidor, que parece ser qual demônio malfazejo que se esforça por alterar, transtornar e destruir tudo; — sentir-nos-emos então prontos a bradar: Para que é tanto ruído? para que são esse esforços, essas violências, essas ansiedades e essa miséria? Contudo trata-se apenas de uma coisa bem simples, que cada João encontra a sua Joana . Por que é que semelhante bagatela representa um papel tão importante e leva incessantemente a perturbação e a discórdia à vida bem regrada dos homens? — Mas, para o pensador sério, o espírito da verdade desvenda a pouco e pouco esta resposta: não se trata de uma ninharia: longe disso, a importância do assunto é igual à seriedade e à violência com que é tratado.

O fim definitivo de todo o empreendimento amoroso, quer descambe no trágico ou no cômico, é realmente, entre os diversos fins da vida humana, o mais grave e o mais importante e merece a profunda seriedade com que todos se lhe dedicam.

 

Ilustração de John Clare.

Arthur Schopenhauer's photo.