O INCONSCIENTE EM FREUD E GRODDECK

Print version ISSN 0103-6564

Psicol. USP vol.10 n.1 São Paulo  1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-65641999000100008

O TELESCÓPIO E O CALEIDOSCÓPIO: OINCONSCIENTE EM FREUD E GRODDECK

 

Lazslo Antonio Ávila
Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto – SP

Este ensaio investiga o conceito de Inconsciente em Freud e Groddeck. Há uma relação íntima e complexa entre as idéias desses autores, que se demonstra pelos modelos que cada um deles elegeu para representar o aparelho psíquico. A escolha de Freud recaiu sobre o Telescópio que enxerga longe e procura, em imensas distâncias, pelo Homem. O modo pelo qual Groddeck vê a realidade humana é representado pelo Caleidoscópio, o mutante e multicolorido instrumento que re-cria continuamente o que se vê.
Descritores: Inconsciente. Psicanálise. Freud, Sigmund, 1856-1939. Groddeck, Georg, 1866-1934. Metapsicologia.

 

 

O Inconsciente: o desconhecido; o incógnito; o encoberto; o que é; o que funda; o que forma; o a-temporal; o que já estava; o que está; aqui e lá; o que estará; o que cria; o que faz; o que recorda; o que domina; o que subjaz; o que pré-forma; o que conduz; o que produz; o que desfaz; o que deforma; o que diz forma; o que informa; o que rima; o que mira; o que ri; o inconsciente.

Trataremos aqui de duas formas em que se deixa entrever o Inconsciente, em que se pode descrever o Inconsciente. Descrer-ver o Inconsciente: Freud e Groddeck.

Freud propõe o aparelho psíquico como um aparato ótico com a conformação de uma luneta, ou um telescópio. No capítulo sete da Interpretação dos Sonhos (Freud, 1900), ele elabora sua primeira Metapsicologia. Nela supõe duas extremidades para este aparato, uma perceptiva, outra motora. O psiquismo é concebido como um sofisticado equipamento capaz de contactar a realidade, apropriando-se perceptiva e motoramente dela, mas com transformações ativas dessa mesma realidade no interior do dito aparelho. Embora instrumento, o psiquismo é criativo em seu processo de captação. A “matéria” absorvida nunca é apenas reproduzida, não se trata, em absoluto, de um aparelho “fotográfico”. Ela é re-criada, moldada, plásticamente tratada, perfazendo novas “realidades”. Mais semelhante, portanto, ao trabalho do pintor do que ao do fotógrafo. Mas Freud, visionário, vai mais longe e propõe como modelo, não o quadro, o pincel e a paleta, mas o Telescópio. Tele-escópico. Vê longe, o Mestre. Sonhador, volta-se para as estrelas, perscruta o espaço desconhecido. Viaja profundezas, imensidões. Com seu aparelho (psíquico e, simultaneamente, teórico) propõe a investigação dos mistérios, das distâncias. E da maior das distâncias: aquela que separa o Homem de si mesmo.

Está criada a Psicanálise.

Com o advento do Inconsciente, perde-se o orgulho antropocêntrico, narcisicocêntrico. Mais só do que nunca, transformado por sua serva Ciência em um tolo desorientado, o Homem, este Senhor despojado, volta-se irado contra suas criaturas. E a Psicanálise é uma das vítimas: de peste converte-se em vacina. Imunizada, imunizante, esvaziada de seu caráter virulento, em apenas poucos anos torna-se método de normalização, de normatização. Deve voltar a ser uma serva obediente, que arrume a casa ao invés de torná-la um pandemônio.

O próprio Freud, criador e criatura da Psicanálise, age obliquo. Cria instituição, afasta rivais e “diferentes”. Olha zeloso a cria, a prole, a obra. Mas, atravessado pelo que gerou, deixa-se ultrapassar e se torna instrumento do que faz. Medium da Psicanálise, é revolucionado por ela, arrebatado. Refaz o que criou, re-pensa. Através de seu telescópio divisa o que deve elaborar. Serve à sua descoberta, segue o impulso a que deu origem, mas que agora o conduz. É forçado a descrever o Céu que vislumbrou. É forçado a inventar o que imaginou. Se “viu” deve “dizer”.

Mas a ideologia faz sua terraplanagem, e é rápida a “recuperação” da Psicanálise: de saber subversivo a “contribuição” para as formas positivas do saber e da adaptação. E aí a Psicanálise que podia desconstruir se incorpora à “realidade”.

Mas, mas … também a Psicanálise é serva. É serva de um mistério. Revolve-se a terra aplainada. Agitam-se as forças telúricas. E as oníricas também. O mito originário convulsiona a criatura. Freud e todos os psicanalistas debatem-se em sua contradição: agitaram as profundezas, convocaram os elementos, debruçaram-se nos umbrais. Agora olham. Aterrados, maravilhados, seduzidos. Depois despertam. E há que se fazer alguma coisa.

Por que não uma profissão?

Uma profissão bem real. Feita de horários, e regras, regras, regras. Uma profissão bem honrada. Se possível bem parecida com a Medicina.

E aquilo que foi visto? E o horror? E o fascínio? E o medo? E a deslumbrante fantasia? E tantas possibilidades? Tantos seres, tanta vida? E o abismo? E o inconsciente?

Domestique-se o Inconsciente.

Descrevam-no, descrevam-no tão minuciosamente que ele mais se pareça com a cartografia de um território bem conhecido. Um velho mapa, um conjunto de linhas, pontos, cores, traços. Uma velha fotografia.

Freud se mexe no túmulo. Não, uma fotografia, não! É uma carta do Céu! É o profundo. É o mistério. Aí Freud chama auxílio.

É um médico também. É Groddeck.

Aquele que gostava de se apelidar com o nome de um gnomo.1

Aquele irreverente. Aquele que imaginava o Inconsciente como um Caleidoscópio (Groddeck, 1984, p.226). Aquele que via tudo cambiante, mutante, inquietamente agitado. Irisado.

Partindo do horror das doenças orgânicas, daquelas crônicas, das terríveis em suas seqüelas, das acabrunhantes doenças físicas estigmatizantes, das angústias tremendas dos doentes terminais, esse médico-psicanalista-poeta buscava símbolos. Símbolos onde pudesse ler nas mais dramáticas dores e nos sintomas cruamente concretos sinais de uma linguagem criativa. Cada doença uma obra de arte. Cada sofredor um artista. E a Psicanálise, guia-mestra da interpretação que arrebata, da interpretação que cura, transforma.

Meio místico, também visionário, Groddeck é um sonhador. Sonha uma Psicanálise quase Literatura, uma Psicanálise quase Iniciação (D`Epinay, 1988). Com fervor convida seus pacientes a se re-inventarem. Desafia-os. Leiam-se suas Conferencias Psicanalíticas para o Uso dos Doentes (Groddeck, 1978-1979, 1981, 1983). Em 1917, enquanto Freud faz suas Conferencias Introdutórias, obra magnifica, para um público leigo mas culto, Groddeck predica para doentes. Doentes terminais, crônicos, desenganados. Freud divulga a Psicanálise, que pela primeira vez tem ouvintes atentos e benevolentes. Por curiosa simetria, Groddeck expande a Psicanálise para pessoas que se não encontrarem uma forma de escapar ao cruel destino de suas doenças físicas, em breve já não poderão receber mais qualquer forma de ajuda. Groddeck faz Conferências onde se expõe como modelo. Modelo de identificação, mas não identificação de um ideal e sim identificação com as contradições de quem sabe que possui e tenta reconhecer seu Inconsciente. Freud (1900) fez sua auto-análise publicamente, principalmente na Interpretação dos Sonhos. Groddeck faz a sua nestas Conferências, em seu Sanatório. Expõe-se nú.

Para Freud se tratava de articular um método para a associação-livre, para o levantamento das resistências, para o desvendamento do latente, para a descrição dos mecanismos do processo primário, para a gestação de sua Metapsicologia. Para Groddeck tratava-se de produzir um discurso que curasse. Um discurso que cursasse com o rumo das idéias de seus pacientes, para que o Inconsciente pudesse emergir.

Freud queria descrever, elaborar, teorizar. Produzir método e técnica. Gerar conhecimento. Groddeck quis escrever, gerar, artistizar. Queria produtos assistemáticos e abertos. Pretendeu gerar encantamento.

Ambos foram gênios. Freud no sentido da Ciência. Groddeck no sentido de um gênio mal, irascível, com força e poder para perturbar a Psicanálise, mas que num turbilhão (como costuma acontecer …) partiu, deixando um pouco atônitos e descrentes os que o puderam perceber.

Groddeck é uma dimensão da Psicanálise. Uma dimensão muito presente em Freud. Essa dimensão que pede criação, e quer que a Psicanálise seja pensante, pulsante. Que a Psicanálise seja viva e não se deixe encarcerar nos esquemas de pensamento que ela mesma gera. Que não seja devorada pela Ideologia. Que seja mais Fênix do que Quimera.

 

Os dois inconscientes

Trafegaremos aqui entre dois textos-chaves, o magistral “O Inconsciente” (Freud, 1915) e o marginal “Sobre o Isso” (Groddeck, 1925), este último retirado da Arca.2

Textos-chaves para abrir e para trancar. Chaves para comunicar. Descobrir. Sigamos Freud:

Para o criador da Psicanálise

… a hipótese do Inconsciente é imprescindível e legítima (…) já que os dados na consciência são cheios de lacunas, tanto nas pessoas saudáveis quanto nas doentes ocorrem freqüentemente atos psíquicos os quais, para seu esclarecimento, pressupõe outros atos, os quais a consciência não gerou. (1915, p.1).

O Inconsciente para Freud é, assim, uma hipótese “imprescindível e necessária”, frente à sua intenção deesclarecer os atos psíquicos que permanecem ocultos, mas que podem manifestar-se indiretamente como lacunas na Consciência, ou como sonhos, parapraxias ou sintomas neuróticos.

Groddeck parte da noção do Isso3, conceito ambíguo e indefinido, que alcança a totalidade do humano: “Esta é uma reflexão sobre o Isso. Em vez da frase: eu vivo, ela defende a seguinte idéia: eu sou vivido por Isso.” (Groddeck, 1992, p.29).

O Isso groddeckiano é essencialmente inconsciente, mas não se confunde com o sistema Inconsciente da primeira tópica freudiana, nem se identifica com o Id da teoria estrutural (segunda tópica). Se para Freud a Consciência era apenas a ponta de um iceberg, abarcando o Inconsciente a quase totalidade da vida psíquica, para Groddeck o Isso abrange “a vida inteira”:

Da união entre o espermatozóide e o óvulo humanos surge um ser humano, não um cachorro ou um pássaro; nele há um Isso que força o desenvolvimento do ser, que constrói o corpo e a alma do ser humano. Esse Isso dota sua criatura, a personalidade, o Ego do ser humano, de nariz, boca, músculos, ossos, cérebro, faz com que esses órgãos funcionem e entrem em atividade já antes do nascimento, e impele o ser que está surgindo a ações convenientes, antes de completar-se o desenvolvimento de seu cérebro. Pergunta-se se esse Isso, que é capaz de tanta coisa, não estaria em condições de construir igrejas, de compor uma tragédia ou inventar máquinas; pergunta-se se toda manifestação de vida humana, seja corporal ou psíquica, saudável ou enfermiça, pensamento, ação ou função vegetativa não pode ser atribuída em última análise ao Isso, de modo que o corpo, a alma e a vida conscientes fossem uma ilusão. (Groddeck, 1992, p.29-30).

Com imenso rigor e detalhamento, Freud vai buscar circunscrever/estabelecer o conceito do Inconsciente:

Antes de prosseguirmos queremos enunciar o fato importante mas incomodo, de que a inconsciência (Unbewusstheit) é apenas um aspecto do psíquico, o qual de modo algum basta para caracterizá-lo. Dão-se atos psíquicos de diferentes valores (Dignität) mas que, não obstante, passam por cima disso, ficam acima disso quanto à característica, quanto ao caráter de ser, ou de estar, inconsciente. O inconsciente abrange, por um lado, atos, o mero latente que é temporariamente inconsciente, mas que em nada diferem em si do consciente e, por outro lado, casos como o do recalcado, os quais, no caso de virem a ser conscientes eles se distinguiriam vividamente sobre o que é consciente. Podemos colocar um fim em todos os mal entendidos se nós de agora em diante apenas descrevermos os vários tipos de atos psíquicos se absolutamente não levarmos em consideração se são conscientes ou inconscientes porém sim através de sua relação com as pulsões e aspirações, através de sua composição (montagem, formação de palavras = Zusammenseetzung), filiação (pertinência) na classificação da hierarquia dos sistemas psíquicos uns em relação aos outros e na ligação que possam trazer. (1915, p.5).

Groddeck (1992) prefere um atalho: “sobre o Isso não se pode falar, senão apenas ensaiar palavras.” E prossegue: “Um exame mais detido mostra inclusive que todos os conceitos e denominações tornam-se oscilantes, inseguros frente ao Isso.” (p.30). Para ele a tarefa é, então: “investigar as sendas misteriosamente entrelaçadas da associação, sem a ilusão de querer fazê-lo metodicamente.” (p.31).

Com método, Freud prossegue:

Se quisermos levar com seriedade uma tópica dos atos anímicos então teremos que dirigir nosso interesse para uma dúvida que surge em um desses lugares. Quando um ato psíquico (limitemo-nos aqui a respeito daqueles da natureza de uma representação [Vorstellung]) converte-se do sistema Inc. para o sistema Cc. (ou P-Cc), deveríamos supor que com esta conversão teria um novo registro como que se uma segunda Niederschrift (Nieder – abaixo, inferior, baixo; schrift – escrita, relação, minuta; schriften – caligrafia, escrita, letra, corpo; – inscrição) fosse atada à Vorstellung, portanto ela poderia conter-se em uma nova localidade psíquica e próximo do qual a inscrição originária persiste? Ou então nos devemos acreditar que a conversão passou de um estado para um outro o mesmo material e cumpriu-se na mesma localidade? (1915, p.6).

Para Freud trata-se da importante questão da inscrição psíquica, que lhe permitirá pensar as tópicas psíquicas, desfazendo qualquer possível relação com a localização anatômica:

Nossa tópica psíquica não tem preliminarmente nada a ver com a anatomia; ela se estabelece nas regiões do aparato anímico onde elas podem se dispor no corpo e não ficar prisioneiras de uma localização anatômica. (1915, p.6).

Groddeck não busca as distinções, mas uma visão unitária, integrativa:

Como único caminho à compreensão, eu considero o salto ao próprio âmago das coisas. A hipótese de que somos vividos por um Isso acaba com uma série de conceitos com os que nos acostumamos a pensar; eu já mencionei que para o Isso não existe nem corpo nem alma, pois ambos são formas de manifestação desse ser desconhecido, e que o Ego, a individualidade, torna-se duvidoso, pois podemos seguir o Isso desde a fecundação e retroceder mais ainda até a cadeia dos antepassados. (1992, p.32).

Freud faz então a importante discussão sobre a possibilidade de existirem afetos inconscientes, trabalhando principalmente o “sentimento inconsciente de culpabilidade” e a angústia inconsciente, e propõe que se reserve o termo inconsciente para a representação (Vorstellung), entendendo que a censura atue fundamentalmente na separação do afeto com a representação que lhe era originariamente “atada”. Assim, o Inconsciente, enquanto sistema, vai ser povoado principalmente por conteúdos reprimidos, representações desligadas de seus afetos, que ou permanecem livres, ou convertem-se em angústia, ou prestam-se às somatizações. Descreve, então, as principais características desse sistema:

O núcleo do Inc. consiste em representantes pulsionais, que querem descarregar seus investimentos, portanto em moções desejantes (Wunschregungen). Estas moções pulsionais (Triebregungen) são coordenadas uma com as outras, subsistem ininfluenciáveis uma próxima da outra (nebeneinander), uma não contradiz, contraria (wiedersprechen) a outra. Quando duas moções desejantes tornam-se ativas ao mesmo tempo, suas finalidades (alvos) devem mostrarem-se incompatíveis, então as duas moções nisso não se anulam (ziehen) uma a outra nem uma suspende a outra, porém elas tratam de construírem uma finalidade intermediária juntas, um Compromisso. (…) Não se dá neste sistema nenhuma negação, nenhuma dúvida, nenhum grau de incerteza. Tudo isso vem a ser primeiramente através do trabalho da censura introduzida entre o Inc. e o P-Cc. (Freud, 1915, p.13).

Freud distinguirá o processo primário do processo secundário, concedendo ao primeiro uma maior mobilidade das cargas dos investimentos. Proporá o Inconsciente como um sistema onde o deslocamento é a lei soberana, podendo as representações ficarem desinvestidas integralmente, ou acumularem, através do processo da condensação, a cota de investimento de muitas outras representações.

Duas novas dimensões são acrescentadas:

Os processos (acontecimentos) do sistema Inc. são zeitlos (onde o tempo falta, onde o tempo abandonou), isto é, não são tornados ordenados temporalmente, não se tornam alterados através da passagem do tempo, não tem absolutamente nenhuma referência ao tempo. Também a referência ao tempo vincula-se ao trabalho dos sistemas Cc. (…) Da mesma maneira processos (Vorgänge) do Inc. carecem de toda consideração sobre a Realidade (Realität). Eles estão sujeitos ao princípio de prazer, seus destinos só dependem do grau de sua força e se eles preenchem as exigências da regulação prazer-desprazer. (Freud, 1915, p.13-4).

Freud propõe o seguinte conjunto de características como fundamentais aos processos inconscientes: a não-contradição, a plena mobilidade dos investimentos, a ausência de tempo e a não consideração pela Realidade externa, substituída pela psíquica. Estas características tornam os processos inconscientes irreconhecíveis pela Consciência.

Groddeck (1992) formula, ao meu ver, as mesmas idéias:

De verdadeiros antagonismos, a vida e a morte transformam-se em conceitos elaborados arbitrariamente, porque ninguém é capaz de reconhecer quando o Isso deixa morrer ou faz viver. A delimitação espacial também não funciona para o Isso, que flui e e se espalha nas imediações; não é possível determinar ponto em que um pedaço de pão, um gole de água, um simples compasso de inspirar o ar, um objeto da visão, da audição, do olfato, do paladar e do tato passam a ser propriedade do Isso. As diferenças entre os sexos se diluem, o Isso humano é desde sempre homem e mulher, e mistura-se novamente na fecundação. A determinação da idade falha, pois nIsso há fatores de todas as faixas etárias vividas, não só a partir da fecundação, mas desde o tempo dos bisavós. E por último, o que é mais importante na minha reflexão: a consciência do homem perde sua posição central, cede-a ao inconsciente, sem que se possa encontrar uma linha definida de demarcação. (p.32).

Toda esta passagem poderia ser tomada com o mesmo sentido que Freud dá, no final de seu texto, à “linguagem de órgão” que ele reconheceu na hipocondria. Para Freud essa manifestação caracterizaria um processo típico da linguagem do esquizofrênico, onde a representação de palavra (Wortvorstellung) regride e apresenta-se como representação de Coisa (Sachvorstellung). O esquizofrênico lida então com palavras como se fossem coisas, e “manipulam Coisas (Dinge) concretas como se fossem abstratas.” (1915, p.23).

Talvez seja este o problema com Groddeck: seu Isso extravasa demais, dando-nos a inquietante sensação de que nossas vivências corporais possam tornar-se fluidas como palavras, articuláveis como linguagem, e poderosas para enunciar, por conta própria, nosso viver e nossa capacidade para pensá-lo. Mas, suas concepções permitem uma eficaz investigação e ação terapêutica nas afecções psicossomáticas4 e seu pensamento ousado e disruptivo está disponível para quem quiser reencontrá-lo. Como Laplanche (1992): “Groddeck, continua sendo para nós um dos pontos de referência nessa problemática do inconsciente, referência tanto mais central porquanto permaneceu oculta por tanto tempo.” (p.26).

 

 

ÁVILA, L.A. The Telescope and the Kaleidoscope: Unconscious in Freud and Groddeck. Psicologia USP, São Paulo, v.10, n.1, p.157-68, 1999.

Abstract: This paper deals with the concept of the Unconscious in the works of Freud and Groddeck. There is a complex relationship between the ideas of these authors, which is demonstrated by the models that each one elected for the representation of the psychic apparatus. Freud’s choice was the Telescope, that sees faraway, looking through imense distances, searching Man. Groddeck’s way of looking the human reality is the Kaleidoscope, the mutative and multicoloured instrument that re-creates continuously what is seen.
Index Terms: Unconscious. Psychoanalysis. Freud, Sigmund, 1856-1939. Groddeck, Georg, 1856-1934. Metapsychology.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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GROTJAHN, M. Georg Groddeck, 1866-1934: o analista indômito. In: ALEXANDER, F. et al. A história da psicanálise através dos seus pioneiros. Rio de Janeiro, Imago, 1981.        [ Links ]

LAPLANCHE, J. O inconsciente e o id. Trad. Álvaro Cabral. São Paulo, Martins Fontes, 1992.        [ Links ]

 

 

 

1 Groddeck (1984), em seu O livro d’Isso se apresenta sob o pseudônimo de Patrik Troll. Um Troll era, na Idade Média, um esperto gnomo, cheio de truques e malícia.

2 “A Arca” era a revista produzida e editada por Groddeck. Este texto está reproduzido em: Groddeck (1992).

3 Freud tomou a expressão “Das Es”, o “Id”, de Groddeck, adotando-a a partir de 1923, conforme relata Grotjahn (1981).

4 Para uma exposição detalhada veja-se: Ávila (1996).