De noite, uma janela na cama

Um dos pilares da psicanálise, os sonhos e suas múltiplas interpretações mexem com o imaginário de todo mundo: eu também quero sonhar!

Marinaldo Custódio
Da Redação

Um sonho ou, mais ainda, sua interpretação é daquelas coisas que por vezes têm o condão de se colar à vida de alguém de modo definitivo. E vai marcar a vida da gente de modo tão mais definitivo na medida em que se confirme um dos lados da Teoria dos Extremos: se a pessoa acertar na mosca ou errar espetacularmente a tal interpretação.

Um sonha com os números da Mega Sena, ganha e compra uma fazenda; outro sonha que precisa voltar urgentemente a Mato Grosso, onde o espera, ansiosa e solícita, a doce amada (talvez até pra colocar a aliança no seu dedo esquerdo), mas na vinda o ônibus procedente de Barreiras, na Bahia, desliza na Serra da Petrovina e vai – a chuva fina e a pista molhada – pirambeira abaixo com os sonhos dourados do Josias e levando de roldão outros sonhos de outros e outras e mais os compromissos inadiáveis anotados em cadernetas e agendas, urgentíssimas, de tantos e tantas. Fora os outros tantos compromissos, e amores, e promessas guardados na cabeça e no coração…

Relatos por aí não faltam dando conta de gente que teve, sim, a sua sorte mudada pelo aviso de um sonho: de amor, de sorte grande, de morte, de alerta pra não sair de automóvel naquele dia ou pra não embarcar num certo avião.

Em especial na juventude, são muitas as vezes que a gente sonha sonhos tantas vezes reincidentes: um touro feroz vem te perseguindo pelo pasto, olhos de fogo e chifres afiados, você corre e corre, pra subir na porteira, ele está logo ali, logo ali, mas parece que você encrava no seco e o boi vem chegando, vem bufando… Aí você acorda, ou entreacorda, suando frio e bendizendo:

– Ufa! Ainda bem que foi só um sonho!

Outras vezes parecia que nosso minúsculo corpo era algo assim como um cavalo alado ou, mais modernamente, um bólido da Fórmula 1 e a gente vinha a uma velocidade estonteante, quase voando, só que de repente, numa elevação de terra o solo desaparecia de sob os nossos pés e aí as asas faltavam e lá íamos de cabeça rumo ao precipício tal qual o jabuti na volta da festa no céu quando escapou da carona na viola do urubu.

Sobre esses sonhos dizem os especialistas da psicologia e de variadas ciências de botequim que eles traduzem aquele período mais encantador da vida quando a gente está crescendo, física e espiritualmente; daí os sustos, os sobressaltos.

NUM TERRENO ABANDONADO

Na Banca Central de Cuiabá, capitaneada pelos irmãos jornaleiros Sebastião e Janete, numa manhã de janeiro de sol alto e calor típico para esta época do ano, enquanto a colega Amanda folheava ‘O Maravilhoso Livro dos Sonhos – Edição 2014’ e eu lhe dizia que tinha pronta uma crônica, ainda em manuscrito, sobre o assunto, a funcionária Maria Aparecida dos Santos nos contou, assim: “De minha parte lhes digo que não gosto de sonhar. Pois os sonhos nos trazem revelações às vezes ruins, como uma vez que sonhei que estava vestindo uma calça preta muito apertada e no dia seguinte recebi a notícia da morte do meu irmão”. Fez uma pausa pra atender outro cliente, deu um suspiro e continuou: “Outra vez, nas noites de quinta e sexta sonhei com um enorme terreno abandonado, com bananeiras plantadas. E no sonho eu falava que queria ser sepultada do lado da minha mãe. Quando foi no sábado, recebi a notícia da morte de um grande amigo, juntamente com a namorada dele, num acidente”.

Mas, atenta aos sinais, contemporiza: “Por outro lado, vejo que ele (sonho) vem para me preparar, vem como um alerta para que eu possa começar a aceitar o pior, antecipadamente – como, aliás, aconteceu nesses casos que contei”.

A DAMA E O CACHORRINHO

A outra funcionária da banca naquela manhã, Amanda Leite Pardiola, com o livro na mão e procurando verbetes de seu interesse (que então lia em voz alta), do alto de sua juventude e com o ar entre brejeiro e espevitado que a caracteriza, falou de coisas mais amenas sobre o maravilhoso (cabuloso?) mundo dos sonhos.

Pra começo de assunto, veio com a história do faz-me-rir, o famoso larjan: “Será que sonhar com dinheiro é bom? Será que quando a gente sonha, ele vem mesmo pra mão da gente na vida real? Certa vez sonhei que ia por uma rua e de repente vi uma pilha de dinheiro na minha frente. Parei e comecei a pegar as notas e elas pareciam verdadeiras pela frente, mas quando eu as virava via que no verso eram falsas. Ô droga!”.

Deu seu riso de menina, voltou a folhear o livro e parou na palavra ‘cachorro’: “O que será que significa a gente sonhar com um cachorro? Pois esta noite eu sonhei que estava salvando um cachorrinho”.

Tal qual a famosa personagem juvenil do conto “A Dama do Cachorrinho”, de Antón Tchekhov, não custa a Amanda ter logo a sua volta um Dmítri Dmítritch Gurov com aquela velha conversa mole a lhe contar histórias e mais histórias sobre lulus e poodles e cofaps e perros e quantos mais tipos de cães houver pela face da Terra. Na velha e manjadíssima tática de usar descaradamente o cachorrinho pra se aproximar da dama.

 

A interpretação dos sonhos, de Freud

Da Reportagem

“(Havia uma jovem cuja doença) começou com um estado de excitação confusional durante o qual ela exibiu uma aversão toda especial pela mãe, batendo nela e tratando-a com grosseria toda vez que ela se aproximava de sua cama, ao passo que, nesse mesmo período, mostrava-se dócil e afetuosa para com uma irmã muitos anos mais velha que ela. Seguiu-se um estado em que ela ficou lúcida, mas um tanto apática e sofrendo de um sono muito agitado. Foi durante essa fase que comecei a tratá-la e analisar seus sonhos. Um número imenso desses sonhos dizia respeito, com maior ou menor grau de disfarce, à morte da mãe: numa ocasião, ela comparecia ao enterro de uma velha; em outra, ela e a irmã estavam sentadas à mesa, vestidas de luto. Não havia nenhuma dúvida quanto ao sentido desses sonhos. À medida que seu estado foi melhorando ainda mais, surgiram fobias histéricas. A mais torturante delas era o medo de que algo pudesse ter acontecido à sua mãe. A moça era obrigada a correr para casa, de onde quer que estivesse, para se convencer de que a mãe estava viva.”

(Retirado do livro ‘Conceitos da Psicanálise: Fantasia’, de Julia Segal, p. 23-4)

 

fonte: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=466175