O dia em que Freud não morreu

Psychiatrist Sigmund Freud

fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/pensar-psi/o-dia-em-que-freud-nao-morreu/

GLAUFLEAL

23 Setembro 2014 | 14:45

Passados 75 anos da morte do criador da psicanálise, suas ideias ainda influenciam profundamente as maneiras de pensar e entender o mundo – mesmo que nem sempre seja possível perceber isso de forma consciente. Pode-se concordar ou discordar dele e até mesmo odiá-lo. Mas é impossível a qualquer pessoa bem informada permanecer indiferente à sua obra

Imagine um jovem e talentoso neurologista que trabalhasse com crianças vítimas de paralisia e estudasse o funcionamento do sistema nervoso, na conservadora Viena do fim do século 19. Um pesquisador dedicado e culto, reconhecido por professores e colegas mais experientes, que – sem grandes sobressaltos – certamente construiria uma sólida carreira acadêmica. Perspicaz e produtivo, na segurança do laboratório é muito possível que fizesse descobertas dignas do aplauso de seus pares. Essas comprovações, realizadas com rigor, poderiam ser replicadas e obviamente teriam seu valor, oferecendo sustentação a achados posteriores, úteis para o avanço científico. Talvez nada realmente transformador, mas sem dúvida importante. É provável que esse fosse o caminho mais seguro e óbvio a ser seguido. Mas não foi o escolhido por Sigmund Freud. Ele mostrou, até por meio das próprias decisões, que o mundo (interno e, consequentemente, externo) escapa à lógica – é “psico lógico”.

Não por acaso Freud tornou-se uma das figuras mais controversas do século passado. Em A interpretação dos sonhos, de 1900 – considerado um marco na criação da psicanálise – ele apresenta ideias que deixaram de pernas para o ar muitas das teorias até então vigentes sobre o ser humano e seu funcionamento psíquico. Em uma sociedade aparentemente recatada, onde falar sobre sexo (e admitir que o assunto merecia ser tratado com atenção) era um tabu, Freud ousou fazer afirmações consideradas, na época, inconvenientes e escandalosas acerca da sexualidade – até mesmo de crianças pequenas. Disse, por exemplo, que a boca é uma zona erógena e que o prazer desfrutado pelo bebê no ato de sugar é sexual.
Falou ainda de algo, no mínimo, incômodo: a existência de uma instância psíquica inconsciente que aflora e se faz conhecer por meio de sonhos, atos falhos, sintomas. Essa proposição – que mudou a relação do homem consigo mesmo, com a cultura e a arte e com o próprio corpo – é considerada a terceira das grandes feridas narcísicas da humanidade. A primeira é a afirmação de Copérnico de que a Terra não é o centro do universo: é o planeta que gira em torno do Sol. Essa ideia nos leva à conclusão de que nenhum de nós, terráqueos, está no umbigo do mundo. O segundo golpe vem com Darwin e sua teoria, que aproxima o homem de outros animais e o coloca ao lado deles na cadeia evolutiva. E, por fim, Freud fala desse âmbito inescrutável que mora em nós e nos move em direção a sentimentos, escolhas e atos tantas vezes estranhos em nós.
Em busca da escuta do inconsciente, o médico de almas apresentou a homens e mulheres, estarrecidos diante de sua ousadia, uma clínica revolucionária, que se embasava na cura pela palavra, pela associação de ideias que se ligavam umas às outras e terminavam por trazer à tona os conflitos que escapavam à consciência. Passados 75 anos de sua morte – causada por um câncer que se arrastou por muito tempo –, seus conceitos foram lidos e relidos, revistos e esmiuçados, retalhados, ampliados, discutidos. E nem sempre compreendidos. Quando um aluno, colega ou amigo pouco habituado á obra de Freud comenta o quanto ele deixou de lado em sua teoria ou foi marcado por ideias hoje ultrapassadas, embora vigentes em sua época, tendo inicialmente a concordar. De fato, Freud não explica tudo, ao contrário do que prega o senso comum. Aliás, não explica mesmo: antes, ensina a suportar que o saber, tanto de si quanto do outro, pode ser construído por meio da experiência, da elaboração – e, assim, abre caminho para desdobramentos da teoria. Pode-se concordar com Freud ou discordar. Ou até mesmo odiá-lo. De qualquer forma, uma coisa é certa: é impossível a qualquer pessoa bem informada ficar indiferente ao criador da psicanálise e a sua obra. Sete décadas e meia depois de sua morte, Freud ainda incomoda. E continua em questão.