Nossos julgamentos são afetados por sentimentos que não percebemos – Videocast no final da publicação

LILIANE ORAGGIO
Doutor em física e matemática, o americano Leonard Mlodinow se interessa pela mente humana e pelo acaso. Além de ensinar teoria da aleatoriedade no Instituto de Tecnologia da Califórnia, ele já escreveu roteiros para séries de TV como “MacGyver” e “Jornada nas Estrelas” e livros de divulgação científica que viraram best-sellers.

Inconsciente comanda nossas decisões, mostram pesquisas
Opinião: ‘Escreveu, não leu…’

Foi assim nos casos de “O Andar do Bêbado” e “Uma Nova História do Tempo” –esse em parceria com Stephen Hawking. Em “Subliminar” (Ed. Zahar), lançado neste mês no Brasil, Mlodinow, 59, reúne dezenas de experimentos para dizer que somos comandados por dois cérebros: o consciente, que responde por 5% da capacidade cognitiva, e o inconsciente, que dá conta dos outros 95%. Os dois cérebros atuam juntos para garantir desde a mais básica sobrevivência até a escolha de um bom vinho. Nesta entrevista por e-mail, o autor tenta explicar como aquilo que não percebemos afeta as nossas escolhas.

Folha – Como o inconsciente comanda nossa vida?

Leonard Mlodinow – O inconsciente governa o nosso coração, os movimentos, a visão e a audição e nos permite andar, falar e reagir sem parar para pensar a cada palavra ou movimento. Só os humanos têm essa capacidade bem desenvolvida, e os cientistas não sabem por que é assim. Todos os julgamentos são afetados por sentimentos que não percebemos.

O senhor diz no livro que processos como percepção ou julgamento são comandados por estruturas cerebrais separadas da consciência. Como sabemos isso?

Por meio dos recentes avanços da neurociência nós sabemos que essas estruturas são inerentes à mente inconsciente e inacessíveis à mente consciente. Estão conectadas e todo o trabalho é feito em conjunto para criar uma experiência da realidade em termos físicos e em termos das relações sociais.

Pode dar um exemplo de como a razão sai de campo na hora das decisões?

Em um estudo feito em um supermercado da Inglaterra, dispuseram nas prateleiras vinhos franceses e vinhos alemães. Música francesa e alemã eram alternadas no alto-falante. Nos dias com trilha sonora francesa, 77% dos vinhos escolhidos eram franceses; nos dias de hits germânicos, 73% das garrafas vendidas eram da Alemanha. Mas só um em cada sete consumidores declarou ter sido influenciado pelo som.

E na hora de escolher parceiro, o inconsciente comanda?

Isso é um pouco mais complicado. Existem elementos sutis. Por exemplo, o rosto ou a voz da pessoa nos parecem familiares. Pode ser um sorriso ou músculos bem torneados. Experimentos mostram que o nome de uma pessoa pode influenciar o coração, caso ele combine com o nosso. Em questões financeiras também acontece: em Wall Street, ações com nomes fáceis de pronunciar são mais procuradas por investidores.

Assumir que somos guiados pelo subliminar nos torna mais ou menos lúcidos?

Quanto mais compreendermos as motivações subliminares, melhor nossa mente consciente poderá fazer julgamentos acertados.

De que maneira a compreensão da fisiologia do cérebro ajuda a lidar com medo, raiva?

Quando encontro algo perigoso no ambiente –um animal feroz, uma pessoa agressiva– imediatamente isso é registrado pelo inconsciente e o corpo responde com mudanças no nível de adrenalina ou na pulsação.

Essa resposta acontece em grande parte na região do cérebro chamada amígdala. A mente consciente percebe a resposta corporal um ou dois segundos depois e leva isso em conta para interpretar o que está acontecendo. Depois disso percebemos que estamos sentindo é medo. Com a raiva é semelhante. Outras emoções menos primárias como angústia ou embaraço funcionam de um modo um pouco mais complicado –mas, basicamente, é o mesmo mecanismo.

Essa maneira de sentir é útil para tomar a atitude necessária rapidamente, deixando para pensar sobre o ocorrido depois.

O senhor diz que não choramos porque nos sentimos tristes, mas, ao contrário: tomamos ciência de que estamos tristes porque choramos. Fingir um sorriso pode, de fato, despertar um estado feliz?

Há muito tempo os professores de ioga dizem: “Acalme seu corpo, acalme sua mente”. A neurociência social, agora, dá evidências disso. De fato, estudos sugerem que assumir o estado físico de alguém feliz pode fazer você se sentir mais feliz.

Nessa era do ‘novo inconsciente’, o divã nada pode?

Tanta gente faz anos de psicanálise e não chega a lugar algum. Claro, Freud teve o mérito de ter descoberto o inconsciente usando métodos imprecisos, o que produziu um conhecimento difuso, mas, mesmo assim, a origem das emoções permaneceu obscura. Hoje, o intercâmbio entre neurociência e psicologia experimental e os avanços da tecnologia nos permitem, pela primeira vez, construir uma ciência do inconsciente.

Fonte:

Folha de S.Paulo – Equilíbrio e Saúde – ‘Nossos julgamentos são afetados por sentimentos que não
percebemos’ – 09/04/2013
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COMENTÁRIO DE HENRIQUE TREJGIER

Freud não descobriu o inconsciente. Freud descobriu, com os recursos existentes em sua época, fatos importantes sobre o funcionamento do inconsciente e serviram de base para o desenvolvimento da neurociência, da psicologia e principalmente da psicanálise. Aliás a psicanálise se desenvolveu muito nestes anos desde sua formatação por Freud, através do trabalho de centenas de psicanalistas. Reduzir a psicanálise apenas à descobertas de Freud é o mesmo que dizer que a aviação se resume à tecnologia do 14 Bis.

 

Assista Também ao Videocast de Henrique Trejgier sobre:

– NOSSAS ESCOLHAS E SUA ORIGEM –